Data : 23/05/2017

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SEMINÁRIO DE ITABIRA-CORONEL FABRICIANO 4ª Parte

Quem permaneceu firme, em meio a tantas mudanças e turbulências daqueles anos, embora não fosse seminarista, nem candidato à Vida Religiosa, foi Ivo Afonso da Silva. Sem exagero, pode-se dizer que ele foi o elo de união e o ponto de equilíbrio na comunidade, facilmente aceito por todos por seu modo de ser: meigo, amigo e conciliador. Por ocasião de sua prematura morte, quando tinha apenas 44 anos de idade, encontramos entre seus pertences um exemplar da Imitação de Cristo. Nele, Ivo tinha marcado, a lápis, a seguinte passagem: “Senhor, protege e conserva teu pequeno servo em todos os desafios dessa vida corruptível, de sorte que, com o auxílio de tua graça, seja orientado no caminho da paz até a claridade da felicidade perpétua. Amém” (Livro III, capítulo 59,4).
O período entre os anos 70 e 80 do século passado foi marcado por radicais mudanças na sociedade e também na Igreja. Um setor particularmente sensível a essas mudanças foi (e continua sendo) a formação que, desde então, vinha passando por forte crise. Casas de Formação e Seminários foram fechados e seus imóveis tiveram outros destinos, como aconteceu com o Juvenato dos Fráteres. Por outro lado, intensificaram-se os estudos sobre a formação de candidatos ao clero diocesano e à Vida Religiosa Consagrada.
Nesse campo, destacou-se, com exemplar dedicação e reconhecida competência, Padre Alberto Antoniazzi (1937-2004). Frater Henrique, na qualidade de responsável pelo Seminário de Itabira, pôde participar de muitas reuniões, dias de estudo e debates sobre os diversos aspectos da formação seminarística, coordenados por Antoniazzi. Nele, uma coisa sempre chamava a atenção: sua insistência sobre a dimensão pastoral na formação presbiteral, respaldada por sua visão aberta e dinâmica do ministério eclesial. Dizia: “Nem todos os ministérios se inscrevem, obrigatoriamente, em normas estabelecidas de antemão pela tradição ou pela autoridade eclesiástica. O Espírito Santo pode, livremente, suscitar novas formas de ministérios ou chamar, ocasionalmente, alguém para assumir um papel essencial e mesmo decisivo para a Igreja (um papel profético, por exemplo). Cabe à comunidade e à hierarquia reconhecer os carismas e orientá-los para o bem comum, obedecendo ao Espírito. O carisma não existe porque é reconhecido pela comunidade, mas porque ele existe é que a comunidade deve reconhecê-lo”.
Numa das sessões de estudo sobre ‘O perfil do presbítero à luz do Vaticano II’, Antoniazzi deu uma folha contendo várias citações de Presbyterorum Ordinis (7-12-1965), o Decreto conciliar sobre ‘o ministério e a vida dos presbíteros’. Após leitura em comum, comentou os diversos trechos, ilustrando-os com exemplos bem concretos.
Transcrevemos aqui algumas passagens de maior pertinência: “O presbítero, na mente dos Padres conciliares, ‘é chamado a partilhar com todos a verdade do Evangelho’ (4a), dando especial atenção aos pobres e mais humildes, ‘aos quais o próprio Senhor se associou e cuja evangelização é dada como sinal da obra messiânica’ (6c). Seu múnus de pastor abarca, como tarefa própria, ‘a formação de uma autêntica comunidade cristã’ (6d). ‘Pouco aproveitarão as cerimônias, ainda que belas, ou as associações, mesmo florescentes, se não se orientarem a educar os homens à maturidade cristã’ (6b). ‘Nenhum presbítero pode, isolado e como que individualmente, cumprir de maneira satisfatória sua missão, mas há de unir suas forças às dos outros presbíteros, sob a direção dos chefes da Igreja’ (7b). De fato, os presbíteros ‘estão ligados entre si por uma íntima fraternidade sacramental’ (8a). Nunca esqueçam os sacerdotes que ‘a fidelidade para com Cristo é inseparável da fidelidade para com a Igreja. Postula, pois, a caridade pastoral que os presbíteros, para não correrem em vão, trabalhem sempre no vínculo da comunhão com os bispos e com os demais irmãos no sacerdócio’ (14c). Sim, ‘o ministério sacerdotal, por ser o ministério da própria Igreja, não pode cumprir-se a não ser na comunhão hierárquica de todo o Corpo’ (15b)”.
Com ‘santa indignação’, Antoniazzi falava de padres que usavam o ministério para se autopromoverem. Um sacerdote, frisava com energia, deve ser, antes de mais nada, um homem de comunidade, convivendo e compartilhando sua vida com seus irmãos no ministério, alguém que se considera ‘servidor de Cristo’, na sua Igreja. Com fina ironia, criticava seminaristas mais preocupados com as vestes que iriam usar na ordenação, ou com os convites a serem enviados, do que com a ‘imposição das mãos’. Esquecem, dizia, que o ministério eclesial é um ‘dom do Espírito’ para servir in persona Christi, tendo em vista a construção do Reino. Um presbítero, na qualidade de um alter Christus, deve assumir a própria atitude fundamental do Senhor que ‘não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos’ (cf. Mt 20,28). Citando o Decreto sobre a formação presbiteral do Vaticano II, salientava que os seminaristas, tanto do curso de Filosofia quanto de Teologia, deveriam se convencer, uma vez por todas, de que “não é ao poder e às honras que eles se destinam, mas que se abandonam totalmente ao serviço de Deus e ao ministério pastoral. Com particular solicitude, sejam de tal modo formados na obediência sacerdotal, na vida de pobreza e no espírito de abnegação, que estejam prontos a renunciar às coisas que, embora lícitas, não convém e a se conformarem a Cristo Crucificado” (Optatam totius, n.9).
Nos exemplos que dava, Antoniazzi não poupava críticas ao que chamava de cultura clerical, presente nos seminários. Preocupava-se com os seminaristas que só pensavam em ‘fazer carreira’ na Igreja, sonhando com a mitra, mas pouco dispostos a tomar nas mãos o báculo!
Recentemente, em artigo na Revista Eclesiástica Brasileira (fasc.279, julho de 2010), Sílvio José Benelli analisou, com muita propriedade, o status do clero: “Bispos, padres, diáconos e seminaristas podem ser atacados pela ‘mosca azul’ do clericalismo, vivendo exclusivamente num ambiente fechado, de cultura clerical” (p.598). Na mesma página, cita D.B. Cozzens (Silêncio sagrado: negação e crise na Igreja): “O clericalismo envolve a preocupação, consciente ou inconsciente, de promover os interesses particulares do clero e de proteger os privilégios e o poder que foram, tradicionalmente, concedidos àqueles que desfrutam do estado clerical. Há dimensões atitudionais, comportamentais e institucionais do fenômeno do clericalismo… Entre suas principais manifestações, estão um estilo autoritário de liderança ministerial, uma visão do mundo rigidamente hierárquica e uma identificação virtual da santidade e graça da Igreja com o estado clerical e, portanto, com o próprio clero”.