Data : 26/08/2016

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RVP: 4ª Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)

O Documento n.25 da CNBB, de 1982, dizia que as Comunidades Eclesiais de Base “constituem, em nosso país, uma realidade que expressa um dos traços mais dinâmicos da vida da Igreja…”. É significativo que, anos depois, a mesma Conferência tenha se pronunciado positivamente sobre as CEBs. Na sua “Mensagem ao povo de Deus”, da 48ª Assembléia Geral (4 a 13 de maio de 2010), os bispos do Brasil reafirmam que tais comunidades “continuam sendo um ‘sinal da vitalidade da Igreja’. Os discípulos e as discípulas de Cristo nelas se reúnem para uma atenta escuta da Palavra de Deus, para a busca de relações mais fraternas, para celebrar os mistérios cristãos em sua vida e para assumir o compromisso de transformação da sociedade. Além disso, como diz Medellín, as Comunidades de Base são ‘o primeiro e fundamental núcleo eclesial…, célula inicial da estrutura eclesial e foco de evangelização e, atualmente, fator primordial da promoção humana…’ (Medellín,15)”.

A primeira comunidade onde os fráteres, a partir do RVP,  iriam prestar seus serviços foi a Comunidade do Bairro “Jardim Vila Rica”, hoje no município de São Joaquim de Bicas. Junto com Ivo Afonso da Silva, os fráteres — e mais especificamente o frater Henrique —  atuaram muitos anos nessa comunidade eclesial. Não ficávamos restritos à dimensão religiosa, mas, igualmente, desenvolvíamos uma intensa atividade social. No dia 20 de março de 1982, teve lugar a inauguração da Capela, dedicada a São José, com a presença do próprio Bispo diocesano, Dom José Costa Campos (1918-1997). Desde os primórdios da Comunidade de São José de Vila Rica até hoje, o senhor José Vicente de Castro (1938) é o ministro que tem garantido a continuidade do trabalho pastoral naquela localidade.

A Campanha da Fraternidade de 1981, com o tema “Saúde para todos”, repercutiu fortemente na Comunidade de São José, resultando na construção de um Posto de Saúde, com apoio financeiro da MEMISA (Medische Missie Aktie), uma organização católica holandesa. O prédio foi entregue oficialmente à população no dia 20 de março de 1983, ou seja, apenas um ano após a bênção inaugural da Capela.

A intercessão de São José, patrono de ambas as iniciativas, se fez sentir visivelmente! Foi a grande Teresa d’Ávila (1515-1582) que, já no século XVI, disse: “Tomei o glorioso São José por advogado e senhor e encomendei-me a ele com insistência… Não me recordo, até agora, de ter-lhe suplicado coisa que tenha deixado de fazer… Isto têm visto, por experiência, algumas outras pessoas, a quem eu dizia para se recomendarem a ele… Quisera eu persuadir a todos a serem devotos deste glorioso Santo, pela grande experiência que tenho dos bens que alcança de Deus…” (Livro da Vida, capítulo 6,6-7).

O trabalho pastoral, desenvolvida na Comunidade Eclesial de Base (CEB) de Vila Rica foi o ponto de partida experiencial da dissertação de Mestrado de frater Henrique Cristiano José Matos, trabalho publicado, posteriormente, sob o título: CEBs, uma interpelação para o ser cristão, hoje (Ed. Paulinas, 1985).

A pedido dos moradores dos Bairros Belo Vale e Boa Vista, os católicos de Vila Rica ajudaram a fundar uma Comunidade Eclesial naqueles bairros, colocada sob o patrocínio de São Sebastião. A Capela foi inaugurada com a bênção do então bispo da Diocese de Divinópólis, Dom José Costa Campos, no domingo, 30 de novembro de 1986.

Nos anos 80 do século passado, as CEBs tiveram um espaço privilegiado na pastoral da Igreja no Brasil. Acreditávamos sinceramente nesse “novo jeito de ser Igreja” e víamos nele um sinal de grande esperança para uma renovação eclesial no espírito do Vaticano II. Efetivamente, nas CEBs, a acolhida da Palavra de Deus e a vivência comunitária da fé aparecem como realidades indissociáveis. A Bíblia faz parte do dia a dia da comunidade, fazendo-se presente nos grupos e pastorais, nas liturgias e na formação, na reza e nas ações que visam superar as desigualdades e injustiças da sociedade. São espaços privilegiados de leitura popular da Sagrada Escritura, por meio dos ‘círculos bíblicos’ — cujo grande promotor, em nível nacional, é, indiscutivelmente, o frei carmelita, Carlos Mesters (1931) — e dos grupos de reflexão. Nesses pequenos grupos, o povo se coloca como ‘sujeito eclesial’ e assume seu lugar na realidade sociopolítica. O protagonismo dos leigos nas CEBs é expressão viva de uma Igreja que se renova animada pelo Espírito Santo e também um sinal da legítima diversidade de carismas e ministérios. 

Além das duas Comunidades já mencionadas, com suas respectivas capelas, os Fráteres tiveram um papel ativo na formação de três outras CEBs. No município de Igarapé, a igreja de Nossa Senhora do Rosário, 1989, Bairro Cidade Nova, e a igreja do Bom Jesus, 1996, no Bairro Resplendor. No atual município de São Joaquim de Bicas encontra-se a capela de Nossa Senhora de Lourdes, 1986, no Bairro Marques Industrial. A primeira preocupação, em todas essas Comunidades, era a formação de lideranças leigas com pessoas do próprio lugar. Pensamos que — dentro das limitadas condições das respectivas localidades — foi realizado um trabalho de qualidade. Pena que, posteriormente, uma mentalidade clericalista veio travar (em algumas dessas comunidades) o processo de construção de uma Igreja Povo de Deus, na qual leigos e leigas são reconhecidos como verdadeiros protagonistas de comunidades ‘maduras na fé’.

A Mensagem da CNBB sobre as CEBs (12-5-2010) quis dar ‘uma injeção de ânimo’, mas a grande pergunta que fica é: as belas e edificantes palavras dos bispos correspondem à realidade dos fatos? O que vemos não é tão esperançoso. Há ainda vários padres que não valorizam os leigos ou usam-nos apenas como instrumentos de sua ação centralizadora. No fundo, não confiam neles e, quando o leigo ou a leiga toma uma postura mais crítica é sistematicamente ‘eliminado/a’ como ‘inoportuno/a’. À luz dessa constatação, lemos, com certa preocupação e dose de desconfiança, as seguintes palavras que constam na supracitada Mensagem: “Na sua experiência já amadurecida, as CEBs querem ser Igreja como o Concílio Vaticano II desejou: uma Igreja toda ministerial, a serviço do Reino de Deus. A formação do discípulo missionário começa dentro delas pela experiência de um encontro feliz e alegre com a pessoa de Jesus, sua vida e seu destino. Como Jesus convocou discípulos e discípulas para estarem com ele, do mesmo modo, ele convoca também, hoje, discípulos e discípulas para estarem com ele e dele aprenderem o amor ao Pai, a fidelidade ao Espírito e o compromisso para a transformação do mundo em mundo de irmãos e irmãs. Por sua capacidade de cuidar da formação da própria comunidade e de olhar com compaixão a realidade, as CEBs podem e devem ser cada vez mais escolas que ajudam — como diz o Documento de Aparecida, n. 178 — a formar cristãos comprometidos com sua fé; discípulos e missionários do Senhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos de seus membros”.

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