Data : 03/11/2015

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REVENSO

Pastoral da Juventude [1ª parte]

revenso

O REVENSO, entre 1974 e 1984, foi um “Serviço de Apoio à Pastoral da Juventude”, diretamente ligado aos Fráteres de Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia. Seu nome vem de uma frase latina do Hino Sacris Solemnis, composto por Santo Tomás de Aquino (1225-1274): Recedant Vetera, Nova Sint Omnia. A sigla se tornou um lema: “Deixe o velho para trás; daqui em diante, tudo seja novo!”

Recorríamos a várias passagens da Sagrada Escritura para corroborar semelhante projeto de vida proposto à juventude. Assim acontecia com o texto de Isaías 48,18-19: “Eis que vou fazer uma coisa nova, ela já vem despontando: não a percebeis?”. Também 2Cor 5,17: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. Passaram-se as coisas antigas. Eis que se fez uma realidade nova”. Ainda Fl 3,12-14: “Não que eu já o tenha alcançado ou que já seja perfeito, mas vou prosseguindo para ver se o alcanço, pois que também já fui alcançado por Cristo Jesus”. Por fim, Ap 21,5: “Eis que faço novas todas as coisas”.

O REVENSO — fenômeno típico dos anos 70-80 do século passado — mereceria um estudo mais aprofundado. Por ora, só podemos abordá-lo em linhas globais. Existe um amplo e bem organizado arquivo, aberto, inclusive, a posteriores pesquisas. Gostaria de contextualizar seu aparecimento na realidade sociopolítica e eclesial daquele tempo.
Os anos 70 marcaram o recrudescimento do regime militar no Brasil, culminando no governo do presidente Médici (1969-1974). Os direitos humanos foram pisoteados e os movimentos populares duramente reprimidos. Restava a Igreja como um dos poucos espaços de liberdade. Ela assumiu, de fato, um papel profético, tornando-se, em momentos decisivos, a voz daqueles que tinham sido silenciados, inclusive no setor da juventude, particularmente os estudantes. Este é o pano de fundo no qual se projeta o surgimento de numerosos Movimentos de Jovens na década de 70. Estes encontram, em âmbito de Igreja, a possibilidade de expressar seus anseios e suas inquietações. Medellín — a segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano (1968) — deu notável impulso à renovação eclesial em nosso Continente, mediante uma criativa e original releitura do aggiornamento do Vaticano II. Quanto à Juventude, o Documento de Medellín reconhece que “a tendência a reunir-se em grupos, ou comunidades de jovens, se apresenta cada vez mais forte dentro da dinâmica dos movimentos de juventude na América Latina (AL). Os jovens recusam as instituições demasiado institucionalizadas, as estruturas rígidas e as formas de agrupamento de massa. As comunidades de jovens, que acabamos de mencionar, se caracterizam, em geral, por serem grupos naturais (à ‘medida humana’), de reflexão evangélica e revisão de vida, em torno de um compromisso cristão ambiental” (5,6). Mais adiante, encontramos no mesmo Documento a afirmação de que “a juventude é um símbolo da Igreja chamada a uma constante renovação de si mesma, ou seja, a um incessante rejuvenescimento” (5,12). Medellín propõe “uma atitude de diálogo com a juventude”, reconhecendo-a não só como força numérica, mas também valorizando “seu papel, cada vez mais decisivo, no processo de transformação do Continente, bem como seu insubstituível lugar na missão profética da Igreja” (5,13). Por fim, os bispos procuram incentivar os Movimentos de Juventude, dizendo: “Essa pastoral há de tender à educação da fé dos jovens a partir de sua vida, de tal sorte que se lhes permita a plena participação na comunidade eclesial, assumindo consciente e cristãmente seu compromisso temporal” (5,14).

O ideário do REVENSO situa-se nas perspectivas abertas por Medellín (1968), recebendo novos impulsos da Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (8-12-1975), de Paulo VI. Neste importante documento pós-conciliar “sobre a evangelização no mundo contemporâneo”, lemos: “As circunstâncias do momento convidam-nos a prestar uma atenção muito especial aos jovens. O seu aumento numérico e a sua crescente presença na sociedade, bem como os problemas que os assediam devem despertar em todos o cuidado de lhes apresentar, com zelo e inteligência, o ideal evangélico, a fim de que eles o conheçam e vivam. Mas, por outro lado, é necessário que os jovens, bem formados na fé e na oração, tornem-se cada vez mais apóstolos da juventude. A Igreja põe grandes esperanças na sua generosa contribuição nesse sentido. E Nós mesmo — afirma o Papa — em muitas ocasiões, temos manifestado a plena confiança que nutrimos em relação aos próprios jovens” (n.72).

Em 1971, a Congregação dos Fráteres adquiriu um terreno de aproximadamente 53 hectares, no município de Mateus Leme, MG. Nele, havia uma boa casa-de-campo que, no decorrer dos anos, seria adaptada para receber grupos de até 70 pessoas. Batizado com o nome de Sítio Nova Glória, tornou-se o lugar preferido dos “Encontros de Jovens” organizados pelo REVENSO.

O primeiro encontro realizou-se nos dias 30 e 31 de março de 1974, com 14 alunos das primeira e segunda séries de segundo grau (hoje “ensino médio”) do Colégio Padre Eustáquio (CPE). Eram oito moças e seis rapazes, sob a coordenação do então frater José Maria da Costa (1951) e de Afonso Ribeiro de Oliveira (1951). Participaram dessa primeira experiência também frater Nicácio (1931) e Eulina Coelho Perpétuo (1937-2010), professora de Educação Moral e Cívica do mencionado Colégio. Em circular do CPE (21-3-1974), dirigida aos pais dos alunos, explica-se que “se trata de uma oportunidade que oferecemos a um grupo de rapazes e moças do curso colegial para refletirem juntos sobre assuntos de interesse imediato desses jovens, dentro da perspectiva de uma autêntica formação cristã”. Pela avaliação escrita, feita após o encontro, ficamos sabendo que o mesmo não atingiu seus objetivos básicos: “O clima foi por demais festivo e houve muita dispersão”. No dia 14 de junho daquele mesmo ano, foi lançado um Estatuto Provisório, no qual estão descritas as metas do REVENSO — “a serem atingidas em duas etapas consecutivas” — “1. Despertar ‘jovens maiores’, isto é, entre 17 e 23 anos, aproximadamente, para o pleno sentido de sua vida humana e cristã, levando-os a assumir as tarefas concretas, decorrentes de tal conscientização; 2. Selecionar os elementos de liderança, proporcionando-lhes maior aprofundamento de sua vida de fé, com a consequente inserção no apostolado da Igreja, numa de suas múltiplas formas (pastoral da juventude, atividades paroquiais, liturgia, círculos bíblicos, etc)”.
Continua….
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