Data : 01/03/2016

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REVENSO (4ª PARTE)

Um ponto de constante questionamento no REVENSO era a desistência de considerável número de jovens após seu primeiro despertar religioso. Assim, em circular de 4-11-1975, Júlio César, dirigindo-se aos outros jovens, ponderava: “Bom, como já sabemos, o encontro de primeira etapa é apenas a arrancada no motor. O mais importante é o que vem depois: o abastecimento deste motor com uma autêntica gasolina. E o que queremos aqui, neste primeiro bate-papo, é deixá-los a par dos diversos postos de gasolina que o REVENSO lhe oferece, ou seja, as diversas maneiras de você dar continuidade ao que já foi iniciado…”.

Sobre este mesmo tema de perseverança, o Padre Zezinho, SCJ (1941), escreveu, em artigo publicado no Lar Católico (23-2-1977): “Os jovens se entusiasmam tanto [nos encontros] e, depois, um a um vão saindo de fininho a ponto de, em um ou dois anos, só se verem caras novas… Os movimentos de juventude são simples retiros dinâmicos ou movimentos de cunho apostólico que engajam na pastoral da Igreja?… Constatamos que, depois da experiência inicial, a grande maioria dos jovens não se engaja… Se não tivermos equipes de continuidade nos movimentos de juventude, é melhor que não chamemos mais os jovens… Se não podemos dar uma assistência maior do que três dias e depois nada mais, não falemos de pastoral…”.

A ECCR [Equipe Central de Coordenação do REVENSO] levou muito a sério semelhante questionamento. Criaram-se “Encontros de Aprofundamento” e “Reuniões de Estudo e Reflexão”: os chamados REMINE’s (Revenso: mini-encontros). Os resultados, porém, foram escassos. Não foi encontrada uma solução para o problema da não-perseverança. Aliás, instabilidade será sempre uma característica nessa faixa etária. Também é verdade que nunca conseguiremos medir o real alcance do REVENSO na vida do jovem. As boas sementes foram lançadas e, indubitavelmente, frutificaram, cada uma a seu jeito. Vale também aqui a palavra do Senhor na parábola do semeador (cf. Mt 13,4-8). Temos a impressão de que, para não poucos jovens, o REVENSO significou uma graça singular, às vezes decisiva para seu futuro. Recebemos, ainda hoje, notícias nesse sentido, inclusive com testemunhos que emocionam. Nesse mesmo contexto, queremos recordar o adágio dos antigos, que expressa uma perene verdade: Est rerum omnium vicissitudo — Cada coisa a seu tempo!

Faz tempo já que tivemos uma bela confirmação daquilo que acaba de ser exposto. No dia 30 de abril de 2010, houve um inesperado encontro com o casal João Pereira Vieira (1952) e Sandra Lúcia Pereira Vieira (1951), antigos integrantes do REVENSO e atuantes na liderança do Movimento. Que magnífico exemplo de “sementes que desabrocharam e deram frutos!” Felizes os filhos que têm pais assim!

O exemplo de fé desse casal, diante da indizível dor pela morte de sua filhinha, acidentada em frente à sua própria casa, nos fez lembrar o comovente testemunho de São Columbano (543-615): “Quem — pergunta o santo — investigará o Altíssimo em sua inefável e incompreensível essência? Quem sondará as profundezas de Deus infinito que tudo enche, tudo envolve, penetra em tudo e ultrapassa tudo, tudo contém e esquiva-se a tudo? Aquele que ninguém jamais viu, como é? Por isso, não haja a presunção de indagar sobre a impenetrabilidade de Deus, o que foi, como foi, quem foi. São realidades indizíveis, inescrutáveis, ininvestigáveis. Com simplicidade e todo o ardor, crê que Deus é como sempre será, do modo como foi, porque Deus é imutável” (Instr.1 de Fide).

A pessoa do frater Henrique está intimamente ligada à criação a ao crescimento do REVENSO. Na função de “assistente eclesiástico”, participou de quase todas as peripécias do Movimento, tanto as que foram motivo de alegria quanto as que causaram tristeza e perplexidade. Uma das antigas integrantes do REVENSO, Neusa Aparecida dos Santos, nossa “Neusinha” — sucessivas vezes eleita vereadora de Belo Horizonte, chegando a ser (2010) candidata à deputada federal — tomou a iniciativa de introduzir, na Câmara Municipal da capital mineira, o pedido para o frater Henrique ser agraciado com o título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte. No dia 18 de maio de 1995, em significativa e saudosa cerimônia no Palácio Frederico Bicalho, foi-lhe concedida esta honra. No seu discurso de agradecimento, fez referência explícita ao REVENSO: “Este grupo de jovens para jovens cultivava um ideal, levado avante com muita garra e perseverança. Queríamos conscientizar o jovem de seu potencial positivo como cidadão e cristão, levando-o a um engajamento concreto na sociedade e na Igreja. Nosso sonho — em plena ditadura militar! — era construir uma sociedade nova, marcada pela participação democrática e colaboração de todos. Um mundo sem excluídos nem ‘excluidores’. Tal utopia — e sem utopias não há esperança! — era fomentada pelo Evangelho e animada por nossa vivência cristã. Partimos de nossas convicções religiosas e de nossa pertença à Igreja Católica. Encontros, assembléias, reuniões, publicações, manifestações e debates — além de iniciativas concretas, no plano social e até político (gente nossa esteve presa no DOPS!) — assinalaram os dez anos de existência do REVENSO. Jovens de ontem têm, hoje, uma posição social de vanguarda e de compromisso político (no sentido de, responsavelmente, promover o bem comum). Isso é motivo de imensa alegria e de profunda gratidão. Acreditávamos na força jovem e em suas capacidades construtivas de transformação social. Essas esperanças não foram decepcionadas. Os tempos mudaram, o ideal permaneceu. O Evangelho — nossa verdadeira fonte de inspiração — não envelhece e, de seu inesgotável tesouro, podemos tirar, cada vez de novo, coisas novas e velhas. Não temos receio de dizer que, no processo político de redemocratização do Brasil, o REVENSO teve — no seu campo específico, aqui em Belo Horizonte — sua pequena, mas significativa contribuição. Cabe uma palavra de agradecimento a todos os que lutaram conosco naqueles anos de repressão ideológica e souberam levar adiante os ideais que nos motivavam”.

Ainda em 1995, o assistente eclesiástico foi beneficiado com outro título de cidadão honorário, desta vez da cidade de Igarapé, em cerimônia realizada no dia 17 de novembro daquele mesmo ano, na Casa de Cultura da mesma cidade. Podemos perguntar-nos: de que valem essas honrarias? Pensamos que são apenas simbólicas. Por um lado, contêm um reconhecimento. Por outro, implicam um compromisso. Vale nesse contexto refletir o seguinte texto do Livro do Eclesiástico. Temos que ter plena consciência de que, numa perspectiva de fé, somos pessoas limitadas e frágeis. Tudo na nossa vida apresenta-se como um imerecido dom de Deus. Diz o texto escriturístico: “O Senhor sondou as profundezas do abismo e do coração humano, penetrou os seus segredos. Porque o Altíssimo possui toda a ciência e vê o sinal dos tempos. É ele que anuncia o passado e o futuro e revela o fundo dos segredos. Nenhum pensamento lhe escapa e nenhuma palavra lhe é escondida. Dispõe em ordem as maravilhas de sua sabedoria, porque ele existe desde a eternidade para sempre, sem que nada lhe seja acrescentado ou tirado, e não necessita do conselho de ninguém. Quão desejáveis são as suas obras! O que delas se vê é como uma centelha!… Senhor temível e soberanamente grande, sua potência é admirável. Que vossos louvores exaltem o Senhor, segundo o vosso poder, porque ele vos excede. Para o exaltar desdobrai vossas forças, não vos canseis, porque nunca chegareis ao fim. Quem o viu para que o possa descrever? Quem o pode glorificar como ele merece? Ainda há muitos mistérios maiores do que esses, pois vimos senão um pouco de suas obras. Porque foi o Senhor que criou tudo e aos homens piedosos deu a sabedoria” (Eclo 42,18-22; 43,29-33).
Foi essa mesma sabedoria que não faltou a Santa Teresa do Menino Jesus, como se pode inferir da leitura de sua carta de 7-6-1897 — à Irmã Genoveva que, além de coirmã de hábito, era também sua irmã de sangue mais nova: “…Rangeons-nous humblement parmi les imparfaits, estimons-nous de petites âmes qu’il faut que le Bon Dieu soutienne à chaque instant… Supporter avec douceur ses imperfections. Voilà la vraie sainteté! — Coloquemo-nos, humildemente, entre os imperfeitos; tenhamo-nos como pequenas almas que o Bom Deus tem que sustentar a cada instante… Suportar, com doçura, suas próprias imperfeições. Eis a verdadeira santidade!

Tempus est optimus iudex rerum omnium — O melhor juiz de todas as coisas é o tempo! Essa sentença vale também para o REVENSO. Como organização, deixou de existir e uma parte de seus antigos líderes já se foi! De fato, em 1984, os serviços foram interrompidos provisoriamente. Na realidade, nunca seriam retomados. Qual a causa? Hoje sabemos que os derradeiros motivos se relacionam com a mudança de mentalidade e a chegada de novos tempos que exigiam novas propostas. Tempus mutantur et nos in illis — os tempos mudaram e nós neles, diziam os Antigos. De fato, é impressionante como a Igreja e a sociedade mudaram no espaço de apenas dez anos, ou seja, de 1974 e 1984. E um dos setores mais sensíveis a essas mudanças foi a própria juventude. Os jovens foram atingidos pelos novos rumos abertos na Igreja, com a aplicação dos princípios de renovação do Concílio Vaticano II, e pelas perspectivas advindas do ocaso do regime militar no Brasil e da subsequente redemocratização do país.

Em extenso artigo, intitulado: “Reflexões teológico-pastorais sobre Movimentos de Juventude” [REB, vol.33, fasc.129, março 1973, p.139-154, e fasc.130, junho 1973, p.391-411], Padre João Batista Libanio, SJ (1932-2014), já naquele ano, anunciava tais mudanças, insistindo na formação da consciência crítica dos jovens para serem capazes de integrá-las, adequadamente, à sua vida. “Os movimentos de juventude — afirma Libanio — trabalham de modo especial no campo religioso. Aí, pode-se criar também uma consciência crítica que ajudará o jovem a encarar toda a realidade com objetividade e distância, livre, quanto possível, de pré-compreensões deturpadas, pré-fabricadas por sistemas ideológicos” (p.409). O autor termina, dizendo: “Todo trabalho humano requer purificação, revisão, correção. Por isso, deveríamos estar sempre abertos às críticas, às reflexões que nos vêm ajudar na tarefa de nosso caminhar” (p.411).

Se o REVENSO contribuiu no despertar desse espírito crítico, tornando os jovens mais conscientes e maduros para tomar decisões na vida, a partir da própria experiência de fé, então, podemos, humildemente, dizer: “Cumpriu sua missão histórica!”

No fim de 1984 — ano em que se encerraram as atividades do REVENSO — recebemos de um antigo revensista que se mudara para os Estados Unidos, um cartão de boas festas. Nele, dizia que o REVENSO foi um acontecimento importantíssimo na sua vida, que o ajudou a conhecer melhor a si mesmo e a qualificar suas relações. Afirmou ainda que o Movimento lhe proporcionara uma nova visão de Deus, fazendo-o, igualmente, descobrir o Evangelho como proposta de vida nova. Agradeceu, calorosamente, a todos que contribuíram para sua atual realização como homem e cristão e isso numa cultura muito diferente da sua pátria de origem. Seu cartão reproduzia uma bela paisagem, com uma estrada de terra ladeada de frondosas árvores, tendo no fundo a silhueta de um andarilho. A frase impressa era a do Salmo 16/17, 5: “I kept my feet in your paths: there was no faltering in my steps — Os meus passos eu firmei na vossa estrada e, por isso, os meus pés não vacilaram”.

Que muitos dos que passaram pelo REVENSO possam endossar essas mesmas palavras, banhadas na fé e na esperança!

FIM.

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