Data : 04/01/2016

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REVENSO 3ª parte

Cartão_Frater_HenriqueNão queremos entrar em excessivos detalhes sobre o REVENSO. Que surja entre nós um estudioso disposto a debruçar-se sobre as origens e o desenvolvimento dessa modalidade de pastoral da juventude. No entanto, não podemos deixar de falar dos 51 Encontros que o REVENSO organizou, sempre em fins de semana, entre 1974 e 1984. Um levantamento superficial — mediante a contagem das fichas individuais, existentes em nosso arquivo — mostra que aproximadamente 3.200 (três mil e duzentos) jovens participaram dos Encontros. No Informativo de dezembro de 1975, são postos os critérios de seleção: faixa etária de 17 a 25 anos e nível de escolaridade a partir do segundo ano do ensino médio. Na mesma circular, somos informados de que os encontros são “mistos” e realizados em Mateus Leme, no Sítio Nova Glória, longe da poluição da grande cidade, num ambiente de tranquilidade e paz”. Para os pais, vem ainda a observação de que os jovens serão acompanhados por “alguns casais experientes” e por outros adultos. Por fim, é dito que o REVENSO organiza, normalmente, seis encontros por ano: quatro de “primeira etapa” e dois de “segunda etapa”. Os encontros começam no sábado pela manhã, com saída de Belo Horizonte, em ônibus especial, às 6h45, e terminam no dia seguinte, domingo, às 19h, também em Belo Horizonte, com a “Missa de Encerramento”, para a qual são convidados os pais e amigos dos revensistas.

Uma curiosidade: três religiosos presbíteros, que tiveram uma atuação frequente nos Encontros do REVENSO, são hoje (2016) bispos: Dom Luiz Mancilha Vilela, SS.CC. (1942), atualmente arcebispo metropolitano de Vitória, ES; Dom Enemésio Ângelo Lazzaris, Orionita (1948), bispo diocesano de Balsas, MA; Dom José Belisário da Silva, OFM (1945), arcebispo metropolitano de São Luís do Maranhão.

Os primeiros 38 Encontros do REVENSO tiveram lugar em Mateus Leme. O 40º realizou-se no Cenáculo, em Belo Horizonte (Venda Nova). Os dez últimos (41 a 51) já funcionaram na nova Casa do Retiro Vicente de Paulo, em Igarapé. O 36º Encontro (19 a 21 de abril de 1980) teve o maior número de participantes: cem pessoas, entre jovens e adultos. Seguiu-se o 32º Encontro, de 21-22 de abril de 1979, com 95 participantes. Desde o 8º Encontro, de 26-27 de abril de 1975, houve uma significativa participação de jovens da cidade de Itabira, o que fez o trabalho do REVENSO se expandir pelo interior do Estado.

Durante o 16º Encontro, para ser exato, no domingo, dia 15 de agosto de 1976, o frater Bellarminus van Rijswijk (1913-1983), então Superior Geral dos Fráteres, visitou o Sítio Nova Glória, em Mateus Leme. Deixou por escrito suas impressões que — traduzidas para o português — foram publicadas no número 11 do Jornal do Revenso (setembro de 1976, páginas 9 e 10).

Além dos Encontros propriamente ditos, o REVENSO promoveu inúmeras outras atividades. Assim, durante o Ano Santo de 1975, no dia 15 de agosto, foi organizada uma Caminhada Mariana à Serra da Piedade, em Caeté, sob a coordenação do Irmão Aleixo Maria Autran, Marista (1930-1988). O contagiante amor à Mãe de Deus, transmitido com simplicidade e convicção por parte desse grande mariólogo — que não teorizava sobre a espiritualidade mariana, mas a vivia de forma testemunhal — fez os jovens vibrarem. Fiel ao espírito do Fundador de seu Instituto Religioso, Padre Champagnat, Irmão Aleixo personificava a própria saudação marista: Laudetur Iesus Christus et Maria Mater eius.

Os textos de suas reflexões sobre Maria saíram, um ano depois, reelaborados e sintetizados, no epílogo do volume 5 da Coleção “Vida Religiosa: temas atuais”, que traz o título: “Pelos caminhos da Ancilla Domini”. Nessa publicação, encontramos a afirmação de que, na Igreja das Origens, isto é, nas primeiras comunidades cristãs, “Maria é uma presença. Somente e tudo isso. Presença de comunhão e de participação. Presença luminosa e, ao mesmo tempo, discreta: oblativa. Ela está ali, à disposição de todos, a serviço de todos, para todos Mulier, ecce filius tuus! Presença comprometida com todos e, por isso, atuante em todos. Presença encarnada na realidade histórico-salvífica, humano-divina dessa Igreja que dá seus primeiros passos no mundo e com o mundo de então. Presença translúcida do Mistério que, em seu seio, se enraizara; sob seus cuidados e sua doce providência, se desenvolvera; e, em suas dores e com sua participação, se consumara. Ela não aparecia, mas transparecia. Era simplesmente a Mãe de Jesus e, como tal, tinha a aceitação, o carinho, a confiança e o amor da comunidade. Mãe de Jesus, discípula também e uma irmã mais velha desses apóstolos que, com ela, podiam aprender a difícil arte de interiorizar a mensagem evangélica para pregá-la com a própria vida”.

Percebe-se, no desenvolvimento do REVENSO, uma evolução. Nos primeiros tempos, predominava o aspecto tipicamente religioso, às vezes, com marcantes influências do “movimento carismático”. Os Encontros provocavam um impacto que, rapidamente, se desfazia depois de sua realização. Aos poucos, esse “estado emocional” foi superado e houve, então, um saudável amadurecimento. Cada vez mais, o acento recaía sobre a dimensão sociopolítica da fé, inegavelmente influenciado pelo profético engajamento da Igreja no campo dos Direitos Humanos, exatamente no período da ditadura militar (1964-1985). Sem deixar sua inspiração evangélica e a preocupação com o aprofundamento da fé, o REVENSO começou a insistir na formação da consciência crítica dos jovens. Tal posição chegou a ser interpretada como suspeita em determinados ambientes. Vimos nossos jovens serem levados ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) para interrogatórios a respeito de suposta subversão política. Curiosamente, foi uma das fases mais ricas e envolventes da história do REVENSO, que deu ao Movimento credibilidade entre a juventude e no interior da própria Igreja. Mas, por ironia do destino, esse engajamento político assinalou também seu declínio que coincidiu, aliás, com o próprio enfraquecimento do regime de exceção, terminando com sua substituição pela redemocratização do país, em 1985.

Nos seus dez anos de existência, o REVENSO passou por altos e baixos. Houve momentos em que sérios questionamentos atingiram sua razão de ser. Assim, assistimos a uma infiltração de Mórmons*, em 1977, que causou consternação e revolta. Outro episódio se relaciona com o surgimento de uma “comunidade jovem” que queria, literalmente, retomar a vida dos “primeiros cristãos”, sonhando com uma “comunhão de bens e de vida”. O pivô dessa iniciativa foi Júlio César, que expôs sua experiência em longa carta, de 10-11-1977, endereçada ao frater Henrique que, naquele ano, se encontrava em Roma. Alguns dias depois, Vítor Márcio escreveu também sobre o mesmo assunto, dizendo: “…não se compreende por que as pessoas não acreditam [em nossa ‘comunidade jovem em formação’], considerando-a um projeto ousado. Nós, jovens, devemos sonhar o sonho que todo ser humano tem no fundo de seu coração, que era impossível até chegar Jesus, que o tornou realidade”. Diante dos excessos facilmente verificáveis, o frater Adriano van den Berg (1934) — que substituiu o frater Henrique durante sua prolongada ausência por motivos de estudos de pós-graduação — assumiu, junto com a equipe central de coordenação do REVENSO, uma atitude firme e sensata. Fala disso em carta de 5-12-1977, correspondência enviada a Roma, uma semana depois. Conseguiu-se, não sem sofridas incompreensões e com muita paciência, recuperar o equilíbrio. Trabalho com jovens sempre traz surpresas, pois dificilmente —Graças a Deus! — estes se deixam enquadrar em esquemas previamente montados por outros!

Naquelas semanas turbulentas e de muita incerteza, um jovem seminarista — diretamente envolvido nos acontecimentos — divulgou uma carta, cheia de ânimo e confiança, na qual citou a seguinte passagem do Livro do Eclesiástico: “Rodeavam-me por todos os lados, mas não havia quem me ajudasse; procurei pelo socorro dos homens e nada. Então, lembrei-me de tua misericórdia, Senhor, e de tuas obras, desde toda a eternidade, sabendo que tu livras os que esperam em ti, que tu os salvas das mãos de seus inimigos. E fiz subir da terra a minha oração, pedi para ser livre da morte. Invoquei o Senhor, pai do meu Senhor. Não me abandones no dia da provação, no tempo dos orgulhosos e do abandono. Eu louvarei o teu nome continuamente e o cantarei no meu agradecimento. E minha oração foi ouvida, tu me salvaste da ruína, livraste-me no tempo mau. Por isso, eu te dou graças e te louvo e bendirei o nome do Senhor” (Eclo 51,10-12).

* Esta é uma retificação que nos enviou o Julio Cesar por e-mail.

Meu caro Fr. Henrique,

Recebi com alegria a cópia da carta que lhe escrevi há quase 40 anos. 
Foi motivo de reavivamento interior entrar em contato com o fervor espiritual expresso em seu conteúdo.  Adorei rever as fotos e as histórias relatadas no site. “Quando tive a experiência de aliciamento por outra seita, não foram os Mórmons, mas sim um missionário da Igreja da Unificação que se infiltrou no nosso grupo. Fizemos um curso de dois dias em BH e depois fomos para São Paulo onde ficamos uma semana. A tempestade durou mais uma semana e depois passou, deixando um vazio que aos poucos foi se preenchendo com a leitura dos livros de Carlos Mesters que me ajudou a entender a Bíblia e o que está por detrás das suas palavras. Agradeço por ser o guardião dessas memórias.

Um fraterno abraço,
Júlio Machado

Continua…

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