Data : 09/05/2016

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Retiro Vicente de Paulo – RVP (2ª parte)

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Ivo de férias em Aracaju, Sergipe.

Quem trabalhou no Retiro Vicente de Paulo, desde o início, foi Ivo Afonso da Silva (1955-1999). Ele era muito mais do que um simples ‘funcionário’. Não é nenhum exagero dizer que Ivo compartilhava, com naturalidade, o carisma da Congregação dos Fráteres (CMM). Literalmente, tudo no RVP guarda a lembrança dele. Não era propriamente ‘religioso’ no sentido canônico, mas visivelmente sintonizado com a Vida Consagrada. Chegou, inclusive, a ser ‘membro associado CMM’. Sobre Ivo Afonso e sua contribuição para o RVP, foi escrito — apenas quatro dias após sua prematura morte, ocorrida em 22 de agosto de 1999 — um pequeno livro, ilustrado com belas fotos coloridas. Citamos dessa publicação uma frase dele, proveniente de uma das suas cartas (23-7-1998), quando se encontrava na Holanda, a convite do então Superior Geral. Dizia: “Acho que a espiritualidade e a fraternidade [dos fráteres] são para mim o ponto alto dessa minha viagem”. No texto do livreto encontramos o seguinte comentário: “Não são palavras ocas. Ivo era, em seu ser e agir, um autêntico discípulo de Jesus, nosso Irmão Misericordioso. Mostrava sua compaixão na capacidade de compartilhar a paixão do outro e com o outro. Saía de seu próprio círculo e entrava na galáxia do próximo para sofrer ou alegrar-se com ele, caminhar junto e construir a vida em sinergia com o outro. Amigos, pobres e doentes podem concretizar com exemplos esta sua solidariedade compassiva. O simples rosto do outro tornava-lhe impossível a indiferença!”

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No RVP, pouco antes do acidente que iniciaria o irreversível processo de debilitação física.

A morte do Ivo repercutiu profundamente, deixando um tremendo vazio. Um professor de Faculdade que o conhecia bem, escreveu no livro das condolências: ”Meus mais cordiais pêsames pela perda de seu grande amigo. Hoje, entendi melhor o que Horácio (65-8 aC), poeta latino, quis dizer quando escreveu após a morte de Virgílio (70-19aC): Ele tirou-se a metade de minha vida — animae dimidium meae!

A saudade que ainda sentimos, hoje, 17 anos depois, impede que verbalizemos adequadamente os sentimentos. Vem à mente palavras do abade beneditino medieval, Elredo de Rielvaux (1110-1167), quando disse, em seu Tratado sobre a amizade espiritual: “Esta é a verdadeira, perfeita, estável e eterna amizade, aquela que a inveja não corrompe, suspeita alguma diminui, não se desfaz pela ambição. Assim provada, não cede; assim batida, não cai; assim sacudida por tantas censuras, mostra-se inabalável e, provada por tantas injúrias, permanece imóvel”.

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Junto com frater Henrique no RVP.

Naquela segunda-feira, 23 de agosto de 1999, quando voltamos do sepultamento do Ivo, no cemitério de Itabira, MG, onde seu corpo foi confiado à “mãe terra”, sendo colocado no mesmo túmulo de seu saudoso pai, um dos participantes indicou a seguinte passagem da insuperável obra De Imitatione Christi, texto que depois foi copiado no “caderno de recordações do Ivo Afonso”: “Faze o que fazes, trabalha fiel em minha vinha e serei tua recompensa (Gn 15,1). Escreve, lê, canta, chora, cala, ora e suporta firme as contrariedades: a vida eterna vale tudo isso e muito mais. Um dia — conhecido somente ao Senhor — há de chegar a paz. Não haverá mais dia nem noite, como agora, mas somente a infinita claridade, a paz e o descanso seguro da luz perpétua. Não mais dirás, então: ‘Quem me libertará deste corpo de morte?’ (Rm 7,24). Nem clamarás: ‘Infeliz de mim, meu exílio se prolonga’ (Sl 120,5). Destruída a morte, a salvação será definitiva. Passou a angústia, reina agora a alegria feliz e o doce e precioso convívio… Ergue, então, teus olhos para o céu. Aqui estou eu e, comigo, todos os santos que travaram na terra grandes combates. Agora, alegres, consolados, seguros e pacíficos, permanecerão comigo para sempre no Reino de meu Pai”(Livro III, capítulo 47). Feita a transcrição, foram ainda acrescentadas no mencionado livrinho as seguintes palavras: “Valeu, Ivo, esta sua vida vivida em favor dos outros! Você agora está inteiramente feliz e nós podemos contar com sua intercessão, enquanto caminhamos nesta terra, rumo ao Céu, onde você está nos esperando com aquele sorriso inconfundível que era tão tipicamente seu!”

Com comovente sensibilidade, a Irmã Liza Helena Ramos (1935), Carmelita da Divina Providência, que bem conhecia Ivo, no final de sua estadia no RVP, aos 16-10-1999, depois de alguns dias de reflexão e estudo — em companhia da Irmã Maria Natalícia Batista de Siqueira (1936) e da leiga consagrada e exímia pedagoga, Elisabeth Maura de Carvalho Eliazar (1945) — deixou a seguinte oração, em forma de poema, à qual deu o título Reza Fraterna:

Ivo, senti sua falta, chegando,
Com seu jeito de anjo, meigo e brando.
Mas percebi sua presença na saudade…
E no sentir o que dizias — ‘Irmã, fique à vontade’.

Presença amiga, tão discreta e significante,
Acolhendo a cada um misericordiosamente,
Você forjou um espírito, marcando este local!
Concretizou, fiel, dos Fráteres, o ideal.

Aqui, você aprendeu o que, de certo, é agora:
Anjo de guarda de quem, sofrendo muito embora,
Quer dar continuidade ao sonho que sonhou
E ao qual, tão dedicadamente, você se doou.

Ivo caríssimo, interceda pelo teu Irmão:
Vele pelos que dão a Vida pelo seu ‘São Vicente’.
Ore por esta Obra em sua oração constante,
Pra que se continue aqui tão sublime missão.

Maria, Mãe de Misericórdia e Compaixão,
Seja presença e doce companhia
Pra quem aqui sofre a falta do irmão!
Console. Preencha. Cure. E dê à dor valia,
Unindo-a também à dor do Filho seu, Jesus.
Amém.

Essas palavras tão singelas refletem, ternamente, a dor da partida, mas, igualmente, a certeza de uma misteriosa ‘comunhão de vida’, penhor do convívio na felicidade eterna.
Continua…

Algumas fotos abaixo para bem relembrar.
Para ampliar as fotos clique sobre elas.

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