Data : 12/04/2016

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RETIRO VICENTE DE PAULO (RVP) — 1ª parte

Iniciamos hoje uma nova série de ‘Memórias’, esta vez ligada ao Centro de Espiritualidade, mantida pela Congregação dos Fráteres de Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia (CMM), Região Brasil.

A chácara em Mateus Leme, adquirida em 1971

Para quem não conhece de perto essa obra, vem aqui uma pequena apresentação. Trata-se de uma ‘Casa de Retiros’, no município de Igarapé, a 45 km de Belo Horizonte. Na realidade, essa propriedade foge bastante ao conceito convencional de ‘casa de retiros’, apresentando-se como um espaço ecológico de inspiração holística. O vade-mécum descreve seu ideário assim: “O Retiro Vicente de Paulo procura ser um centro (ponto de convergência) de uma espiritualidade (um estilo de vida cristã ou de seguimento de Jesus), que tem como eixos o holismo (do grego holos, isto é, a totalidade), no sentido de integração de todo o criado, e a defesa da vida, numa perspectiva evangélica de misericórdia. Este ideário inspira-se nas figuras históricas de São Vicente de Paulo que, no século XVII, soube ser ‘o samaritano dos caídos à beira da estrada’, e de São Francisco de Assis que, em plena época medieval, viveu a fraternização de todos os seres, vendo neles o reflexo da bondade e misericórdia do Criador”.

O atual RVP tem uma pré-história que começa em 1971. Naquele ano, a Congregação dos Fráteres adquiriu dos Missionários Redentoristas da igreja de São José, em Belo Horizonte, um extenso terreno, de aproximadamente 53 hectares — inclusive com uma boa casa de campo — no município de Mateus Leme, MG. Foi batizado de Sítio ’Nova Glória’ e tinha como finalidade acolher grupos, especialmente juvenis, para dias de encontro e retiro. Frater Misael van den Borne (1920-2013) — então com seus 51 anos de idade e em pleno vigor de suas forças físicas — teve um papel de primeira linha na adaptação e ampliação da construção existente. Além de cuidar do ambiente externo, prestava indispensáveis serviços durante os encontros. Misael era um verdadeiro factótum, “pau para toda obra”, irradiando um invejável espírito de serviço. Mostrava-se bem exigente para com seus colaboradores, mas ele mesmo dava exemplo de indeclinável aplicação ao trabalho! O Sítio ‘Nova Glória’ foi usado principalmente pelo REVENSO, um movimento de jovens, nascido em 1974, do qual já falamos amplamente em outra memória desse site.

04- Sr. José Antônio de Abreu mestre em obras de pedra

Sr. José Antônio de Abreu mestre em obras de pedra

Em fins de 1978, surgiram boatos sobre uma iminente desapropriação dos terrenos daquele sítio por parte da COPASA (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), tendo em vista a construção da barragem ‘Serra Azul’, que deveria garantir o abastecimento de água para Belo Horizonte e região metropolitana. No ano seguinte, os rumores foram confirmados e recebemos a comunicação oficial da desapropriação. Colocamo-nos, então, a questão: encerrar efetivamente as atividades ou continuá-las em outras plagas? Na visita canônica do então Superior Geral, frater Wim Verschuren (1933), em julho-agosto de 1987, decidiu-se pela aquisição de um novo terreno, caso a desapropriação se consumasse. Foi o frater Misael que localizou, no município de Igarapé, um terreno à venda, que poderia servir aos objetivos em vista. Uma vez aprovada a compra e confirmada a ação da COPASA, transferimos nossa Casa de Retiros de Mateus Leme para Igarapé. A nova propriedade recebeu o nome de RETIRO VICENTE DE PAULO. Era inicialmente um terreno de quase 3,5 hectares, com uma excelente casa, sede da antiga fazendinha, e um barracão do empregado. Mas não vamos entrar em pormenores. As digitalizar0001construções começaram em 1980, abrangendo as seguintes unidades: uma capela (a futura ‘capela central’), uma sala de palestras (bem no centro do terreno), cozinha anexa ao refeitório e, finalmente, cinco ‘módulos’, ou seja, casas independentes, cada uma com cinco pequenos quartos mobiliados com beliches. Cada módulo dispunha de dois banheiros. Eis aí o projeto original que, no decorrer dos anos, receberia muitas ampliações e aperfeiçoamentos, sendo, igualmente, enriquecido com novas construções. As obras foram supervisionadas pelo Sr. Pedro Rodrigues Maia (1918-2002), na época ministro da Palavra e da Comunhão na Comunidade Eclesial de São Joaquim de Bicas, ainda pertencente ao município de Igarapé. Quem mais se destacou na condução das construções foi o mestre-de-obras, Sr. José Antônio de Abreu (1929-2016) que, a partir de então, se especializaria, cada vez mais, em trabalhos com pedras, deixando, como magnífica demonstração de seu talento, a decoração interna da capela central do RVP.

5- O salão de palestras, uma das primeiras construções do RVP

O salão de palestras, uma das primeiras construções do RVP

Quando começaram as construções, a área do Retiro situava-se na periferia de Igarapé, uma região pouco habitada e com vegetação quase intocada. Era um lugar de silêncio, onde se podia escutar o canto dos pássaros, particularmente os numerosos sabiás. Local ideal para recolhimento e reflexão. No decurso do tempo, com o aparecimento de bairros ao redor do terreno e o surgimento de ‘sítios de lazer’, desapareceu, lamentavelmente, esse clima de sossego.

O cultivo do silêncio apresenta-se como um dos mais sérios desafios para a sociedade hodierna, fortemente inclinada à superficialidade, à evasão e à fuga do ser humano de si mesmo. “Le silence… quel bien il fait à l’âme”, suspirou Teresa de Lisieux, poucos meses antes de sua prematura morte (Últimos Colóquios, 6-5-1897). Quem, de verdade, já fez uma autêntica experiência de Deus, sabe como o silêncio oferece condições privilegiadas para auscultar a voz do Senhor: “Cum enim quietum silentium contineret omnia, et nox in suo corso médium iter haberet, omnipotens sermo tuus de coelko, a regalibus sedibus… — Quando um profundo silêncio envolvia todas as coisas, e a noite chegava ao meio de seu curso, vossa palavra todo-poderosa desceu dos céus e do trono real” (Sb 18,14-15). Oh, que saudades daquele ambiente de paz e tranquilidade!

03- As eternas flores que enfeitam a vida

As eternas flores que enfeitam a vida

Há pessoas cuja presença e ação deixaram marcas imorredouras no RVP. Com profunda gratidão, fazemos aqui sua memória, citando seus nomes e apontando a herança espiritual que nos legaram. Em primeiro lugar, deve ser mencionado a pessoa do frater Leopoldo Remans (1927-2010), ao qual nos referimos há pouco. O que dizer desse religioso sob tantos aspetos exemplar? Vamos tentar resumir, em algumas palavras, sua rica personalidade. Antes de tudo, possuía a rara virtude da equanimidade, vocábulo que o dicionário Houaiss define como “igualdade de temperamento, de ânimo, em qualquer circunstância”. De fato, nunca o vimos — em 34 anos de convivência — exaltado, raivoso ou de mal humor. Isso é algo realmente excepcional e uma invejável qualidade na convivência. Além de ser dotado de brilhante inteligência, Leopoldo — de nacionalidade belga — cultivava uma espiritualidade holística. Amante da natureza, encontrava nela o próprio Criador, com quem mantinha laços de íntima amizade. Não era um homem de devocionismos ou de muitas práticas externas de religião. Mostrava-se, no seu proverbial silêncio, um autêntico contemplativo, sem deixar de ser um homem de intensa atividade: contemplativus in actione! Deixou no RVP sua preciosa “herança ecológica”, configurada em sentir-com, com-paixão e comum-união com toda a natureza.

Defendia, ardorosamente, que, no cosmos, tudo está relacionado a tudo, em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Efetivamente, no mundo, nada existe fora da relação mútua. Assim, todo o Universo constitui uma “grande casa”, onde convivem, e devem conviver, os mais distintos seres e elementos. Leopoldo afirmava que Deus está em tudo e tudo está em Deus. Sem dúvida, Deus e o mundo são diferentes, mas encontram-se abertos um ao outro. Existe uma ‘presença recíproca’, que supera a simples transcendência e a pura imanência, fazendo de ambos sujeitos reciprocamente transparentes. O nefasto paradigma antropocêntrico — que ‘justificou’, durante séculos, um devastador domínio e uma exploração ‘irracional’ da Natureza — deve ser substituído, dizia Leopoldo, por um novo princípio de inspiração holística. Efetivamente, a terra é a ‘casa comum’ de todos os seres e do próprio Deus, e nela cada um tem responsabilidade no ‘cuidado dos outros’. Frater Leopoldo sempre repetia que a questão ecológica não pode se esgotar em belos slogans. Implica, pois, mudança de mentalidade e de comportamento, exigindo a superação de ideias distorcidas e práticas inadequadas, às vezes, reforçadas pela própria religião. Não só falava, mas dava ele mesmo o exemplo, recolhendo, em seus passeios, plásticos e papéis, ou usando somente adubo orgânico em sua horta. Gostava das reflexões de Leonardo Boff sobre ecologia. Concordava com esse escritor-teólogo quanto à urgência de recuperarmos a visão global da Natureza (holos — totalidade), recolocando, ainda mais seriamente, as seguintes perguntas: Como sobreviver juntos, seres humanos e meio-ambiente? E isso pelo fato de termos a mesma origem e o mesmo destino. Como salvaguardar a criação em justiça, participação, integridade e paz? Leopoldo usava, com muita frequência, a expressão de L. Boff sobre a terra como grande Pacha-Mama (grande Mãe), dos povos indígenas andinos, ou a Gaia, da mitologia grega, um ser-vivo, matriz de vida, que merece todo o nosso carinho e veneração.

07- São Francisco de Assis, imagem de barro do Nordeste

São Francisco de Assis, imagem de barro do Nordeste

O projeto paisagístico do RVP é um espelho eloquente da ‘espiritualidade holística’ de Leopoldo. Referindo-nos a ele, podemos exclamar com Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), orador e político romano: Tantas vis admonitionis inest in locis — Quantas recordações nos trazem certos lugares!

Outro religioso, que deixou saudades no RVP, é o já citado frater Misael van den Borne (1920-2013), o homem prático que cuidava dos afazeres domésticos, fazia as compras e providenciava os múltiplos consertos que sempre aparecem em casas do tamanho do Retiro. Ainda achava tempo e disposição para ajudar os pobres das comunidades da vizinhança. No término de um retiro — estando Misael já no último ano de sua permanência no Brasil (1996) — um sacerdote, que o via naquele corre-corre, ocupado em mil e uma atividades, deixou na portaria, por escrito, a seguinte mensagem para Misael: “Deus gosta dos simples, revela-se aos humildes, dá-se a conhecer aos pequenos, abre a mente dos puros e esconde a graça aos curiosos e orgulhosos. A razão humana é fraca e pode falhar, mas a verdadeira fé não se engana” (Imitação de Cristo, Livro IV, capítulo 17,4).