Data : 20/11/2015

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Relação Homem x Animal: uma questão ética.

Simpósio PUCMinas sobre o uso de animais em ensino e pesquisa em busca de uma ética franciscana.

fraterretiroPalestra: “Relação Homem X Animal — a humanidade em busca de uma ética franciscana” (sábado, 8 de agosto de 2015, às 16hs15)

Confesso que fiquei surpreso ao receber o convite para dar uma palestra sobre a “Relação Homem-Animal” na perspectiva de uma “ética franciscana”. Não sou nenhum especialista na área de medicina veterinária ou de ciências afins. Também não pertenço à Ordem dos Frades Menores ou Franciscanos. Tomei como porta de entrada da minha contribuição a diuturna convivência com animais e o interesse que tenho para com seu bem-estar.
As fontes pesquisadas foram tão abundantes e diversificadas que ofereceram material suficiente para um livro que tive o privilégio de apresentar ontem à noite. Traz o título: Ecologia e Animais. Com este binômio queria expressar a íntima conexão que existe entre essas duas realidades. É minha convicção que nossa relação com os animais deve ser colocada num contexto mais abrangente, que é exatamente a ecologia, temática que, em nossos dias, ganhou notável relevância. O subtítulo do livro, Ensaio a partir de uma indignação ética, sugere que o autor não partiu de teorias, mas de experiências bem concretas e pessoais. A primeira diz respeito à ação desastrosa da MMX, mineradora que operou (e parcialmente ainda opera) do Distrito de Nossa Senhora da Paz (popularmente conhecido como “Farofa”), Município de São Joaquim de Bicas, cidade que faz parte da grande BH. De fato, acompanhei, de perto, a chegada da empresa de Eike Batista e pude verificar as suas manobras para obter todas as licenças ambientais dos respectivos órgãos do governo para aumentar a extração de minério de ferro. Também testemunhamos a propaganda enganosa desenvolvida junto à população local, para neutralizar possíveis reações às suas operações. O resultado de apenas alguns anos de atuação, foi a devastação de uma imensa área vegetal. Com o processo de gradativa falência, a MMX deixou-nos uma terra depauperada, uma biodiversidade destruída e o desaparecimento de numerosos mananciais de água. O que era uma magnífica serra virou uma região semidesértica!
Outro fato que me tocou profundamente foi a recente campanha na capital paulista para pôr termo à foie gras, a produção de patê de fígado de ganso ou pato, mediante alimentação forçada. O grande público começou a ter conhecimento de uma prática extremamente cruel e profundamente antiética. Os documentários que circulam na internet nos dão uma pálida ideia da tremenda dor e contínuo estresse provocados por esse método que faz de seres vivos meras ‘máquinas de produção’. Vou poupar o público aqui presente de uma descrição detalhada dessa crueldade, que fere radicalmente nossos mais elementares princípios éticos e civilizatórios. O que, de fato, está em jogo é exclusivamente o interesse econômico! Sempre recordo, nesse contexto, a frase emblemática de Albert Schweitzer, reproduzida na quarta capa do livro mencionado: “O erro da ética até o momento tem sido a crença de que só se deve aplicá-la em relação ao ser humano”.
Apresentei esses dois exemplos para ilustrar a indignação de que se fala no subtítulo. Poderia aduzir inúmeros outros fatos de abusos e maus tratos. No capítulo 3 do ensaio, são abordados casos bem concretos tanto na área da pesquisa científica, quanto relativos à indústria zootécnica.
Já existe uma boa literatura sobre o tema em pauta. Quatro autores orientaram mais diretamente meu estudo: Leonardo Boff, Peter Singer, Sônia T.Felipe e o Papa Francisco. Interessante notar que o primeiro e o último tratam de assuntos ambientais de forma qualificada e abrangente, mas só abordam de leve a questão dos sencientes ou a deixam de lado. Singer e Felipe, ao contrário, concentram-se em questões que dizem diretamente respeito aos animais, mas nem sempre as abordam num contexto ambiental mais amplo. Nesse meu escrito — aliás um simples ensaio, sem pretensão propriamente científica — procuro unir as duas aproximações, propondo uma síntese que faz jus à importância dos sencientes dentro de uma visão ecológica integral.

Para entendermos a relação homem-animal, é também indispensável conhecer os mecanismos que, em boa parte, determinam os rumos da sociedade em que vivemos. Não é segredo para ninguém que nos encontramos imersos numa profunda crise civilizatória. Em parte, trata-se de fenômenos conjunturais e superáveis, mas, em muitos aspectos, a crise é estrutural e de ordem ecológico-social, exigindo mudanças radicais. Atinge não apenas determinadas regiões, mas a Terra toda. O propalado ‘progresso econômico’ associado a um ‘desenvolvimento ininterrupto’ começa a ser fortemente questionado. O próprio planeta já emite sinais de exaustão e de revolta. O modelo dominante, inteiramente voltado ao mercado, mostra-se, cada vez mais, insustentável. Uma de suas mais preocupantes manifestações é a crise hídrica, que pode comprometer a nossa própria sobrevivência.

Recentemente, o Papa Francisco publicou um importante documento sobre o ‘Cuidado da Casa Comum’, a Terra. Não podemos, absolutamente, subestimar a gravidade da crise ecológica que se tornou planetária. O primeiro passo para enfrentá-la é conhecer suas causas e tomar consciência de suas reais consequências. Ainda temos tempo para reverter o quadro sombrio. Assim, a ‘Carta da Terra’, aprovada pela UNESCO em 2000, oferece um referencial oportuno e executável, e foi recentemente enriquecida e aprofundada pela Eco-encíclica do Papa Francisco (24-5-2015). No fundo, a crise que atravessamos é de caráter ético. A civilização ocidental foi, após a queda do socialismo real, dominada pela ideologia neoliberal tendo no capitalismo seu veículo operacional. Literalmente, tudo virou mercadoria, objeto de compra e venda, com o fim de ‘dar lucro’ e lucro cada vez mais crescente. Semelhante mentalidade e way of life afeta radicalmente a escala de valores, cultivada pela humanidade ao longo dos séculos. O sintoma mais grave é o descaso ou desprezo pela vida, que, também, tornou-se ‘comerciável’. Entretanto, quando nos referimos à vida, referimo-nos ao valor derradeiro, nossa razão de ser, o sentido da existência. Numa visão religiosa — não só do cristianismo, mas igualmente de outras grandes Tradições religiosas — atingimos aqui a realidade do transcendente, de Deus. Uma vez perdida a ‘reverência pela vida’(na conhecida expressão de Albert Schweitzer), perde-se também o que de mais nobre possuímos: o significado de nossa existência sobre a Terra. Não se trata tão-somente da vida humana, mas de todas as formas de vida do Planeta. Um mal-entendido antropocentrismo sempre é notoriamente prejudicial para uma compreensão integral do valor que a vida no seu conjunto apresenta. Uma visão verdadeiramente holística, que engloba a Natureza no seu todo (ecologia) rejeita categoricamente esse centrismo no ser humano, que se vê a si mesmo como dono único e absoluto da Terra. É neste sentido que deve ser reinterpretado o texto do Livro bíblico de Gênesis (1,28) de “dominar a terra e subjugá-la. Esta ordem divina hoje só pode ser entendida como uma nobre tarefa de cuidar dela, conservá-la numa atitude de tutela e proteção.

Tudo que existe na Terra encontra-se em estado de correlação, nada e ninguém é uma ilha, todos somos interconectados e inter-relacionados, formando uma grande comunidade terrenal. A vida aí se manifesta nas mais variadas formas e graus evolutivos. Em todos os elementos, por mais simples e elementares que sejam, há um princípio de psiquismo, de espírito, de interioridade. Juntos habitamos nossa Casa Comum, aliás, a única que temos, e dependemos uns dos outros. Literalmente, tudo que compõe a Terra está ‘em evolução’ e tende a formas de vida cada vez mais complexas e convergentes, atingindo no homem o ápice da autorreflexão. Mas, mesmo nele, o processo evolutivo prossegue em direção a metas de maior aperfeiçoamento. Na sua condição específica, o humano carrega a evolução e, por isso, tem uma responsabilidade irrenunciável de cuidado pela vida. Na escala evolutiva, os animais encontram-se mais próximos dele, exatamente na sua qualidade de seres dotados com sensibilidade, ou seja, com capacidade de sentir dor e prazer. Se toda forma de vida merece respeito e proteção, isso vale, a fortiori, para com os sencientes. Hoje, é inaceitável o secular ‘especismo,’ que fez do homem um ‘proprietário’ do animal, podendo usá-lo e abusar dele a seu bel-prazer. Os sencientes têm direitos inegáveis, sendo o primeiro deles o de poder levar uma vida de acordo com sua própria espécie e condições específicas. Maus tratos ou manipulação interesseira é fazer deles um mero ‘objeto’, é ‘coisificá-los’, o que infringe diretamente os princípios mais fundamentais da ética, ferindo valores que sustentam nossa própria razão de ser.

Francisco de Assis foi, no seu tempo, em plena época medieval, um homem holístico, que soube fraternizar todos os seres, desde os mais humildes e desprezados, unindo-os numa harmoniosa convivência. Ele não se colocava desdenhosamente acima dos outros seres, mas ao lado deles, numa relação de parentesco. Move-o por dentro uma forte inspiração religiosa que vê todas as criaturas ligadas ao Criador, um Deus Pai-Mãe de extremada bondade e onipotência amorosa. No seu trato com os seres, humanos ou não-humanos, privilegia os mais fracos, os mais ameaçados e necessitados, num gesto de comovente compaixão. Nisso se mostra um fiel discípulo do Mestre Jesus de Nazaré, o vir misericordiae, por excelência. De fato, a misericórdia ou compaixão evangélica é que constitui o coração do Evangelho, a Boa Notícia da Vida, anunciada e vivenciada pelo Filho de Deus feito homem.

No livro mencionado, desenvolvi amplamente a temática que nesta fala apenas esbocei em linhas globais. Em quatro capítulos, o ensaio oferece uma análise da sociedade hodierna regida por interesses predominantemente econômicos (capítulo 1); mostra a urgência de uma nova visão planetária com seus desdobramentos éticos (capítulo 2); aborda o relacionamento homem-animal, questionando, a fundo, a problemática de sencientes usados e abusados em laboratórios e na indústria alimentícia; por fim (capítulo 4), oferece pistas para uma convivência ecológica que abre um futuro esperançoso para todos que habitam a Terra, dando uma atenção especial aos animais.
A publicação contém ainda oito Adendos com a transcrição de importantes textos da atualidade relacionados com temas ecológicos em geral e com os sencientes em particular.

Termino minha apresentação com um parágrafo da Conclusão (p.164): “Neste ensaio, queríamos aprofundar a relação homem-animal, no contexto de uma visão ecológica mais ampla. Trata-se de um tema relativamente pouco abordado, fato que não deixa de ser um intrigante questionamento. Em nossa opinião, temos aqui um dos ‘pontos cegos’ da reflexão e do debate sobre a ecologia em geral. A grande pergunta que paira no ar é: por que será que, nesse contexto, o assunto dos sencientes não recebe a atenção e o interesse que merece? Intuitivamente, percebemos que estão em jogo questões delicadas que tocam em temáticas que gostaríamos que ficassem ignoradas ou escondidas para não sermos incomodados. Mas é precisamente disso que a publicação que temos em mãos quis ocupar-se”.

Considero este ensaio uma contribuição minha ao Simpósio que estamos concluindo. Espero que esta iniciativa seja um forte estímulo para nos conscientizarmos de que algo deve mudar substancialmente em nossa relação com a Natureza, e, dentro dela, com os animais, sob o risco de comprometermos irremediavelmente o futuro do planeta. Soam aos nossos ouvidos os versos sempre atuais, do “Cântico das Criaturas” entoados pelo Poverello de Assis, há oito séculos: “Louvado, sejas, altíssimo, onipotente e bom Senhor, com todas as tuas criaturas…” (cf. Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco).

Belo Horizonte, 8 de agosto de 2015
frater Henrique Cristiano José Matos, cmm