Data : 13/03/2015

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1ª Reflexão

1ª Reflexão: “O que está por trás da atividade mineradora”

QUES3Um tema de grande atualidade diz respeito à ecologia.

Iniciamos hoje uma série de reflexões sobre a importância de cuidarmos do meio-ambiente, espaço vital cuja preservação determinará o futuro do planeta.
Partimos de uma realidade bem concreta, ou seja, a atividade mineradora praticada, em larga escala, no nosso Estado.

Para início de conversa: dois fatos (1)

Em setembro de 2011 saiu o primeiro número do Jornal MMX, com o subtítulo: “Canal aberto com a comunidade”. Na página 8 lemos: “A MMX quer ouvir você! Para isso, criamos mais canais de comunicação”. Uma vez que a própria Empresa oferece a possibilidade de diálogo — escrevemos naquela ocasião — aceito-a, fazendo uso da palavra escrita.
Começo meu primeiro comentário relatando o que me aconteceu há mais ou menos um mês. Estava andando na estrada que liga Nossa Senhora da Paz (Farofa), Bairro da cidade de São Joaquim de Bicas, a Igarapé, no trecho entre a Praça da Matriz e o Barracão do Produtor, por volta das três horas da tarde num dia de semana, quando, em alta velocidade, veio um automóvel de uma das empresas subsidiárias da mineração. Não havendo acostamento na rodovia, eu tinha, forçosamente, que usar a pista de rolamento. O veículo freou bruscamente por causa do quebra-molas e quase me atingiu. Levantei o braço em sinal de alerta e também de protesto. A pessoa que estava sentada ao lado do motorista colocou a cabeça para fora da janela e gritou: “Oh, velho, sai do caminho, Farofa é nossa!” E imediatamente o carro arrancou e seguiu com redobrada velocidade. Não tive tempo de reagir. Fiquei pensando no ocorrido por vários dias. Parecia uma piada de mau gosto, uma brutalidade de alguém sem muita educação, mas, no fundo, o moço com seus óculos escuros que aparentava uns 25 anos, dissera uma grande verdade: Farofa já não pertencia mais a seus tradicionais moradores, mas passou a ser propriedade de uma empresa de mineração!

Assisti, até agora, a todos os passos do processo de “invasão” e “desapropriação”, este último termo não só no sentido de “perda da propriedade material”, mas, igualmente, uma alienação da identidade populacional em termos de cultura e estilo de vida.
Aproximadamente uma semana depois do acontecido, estive num consultório médico em Belo Horizonte. Quando cheguei, a secretária me avisou que demoraria a ser atendido, pois o médico iria atrasar pelo menos uma hora. Na sala de espera encontravam-se mais duas outras pessoas. Ao meu lado havia uma moça que deveria ter mais ou menos uns 20 anos (enganamo-nos facilmente quando se trata da idade de uma mulher!), lendo o jornal “Estado de Minas”. Espontaneamente começou a conversar comigo sobre o conteúdo da leitura. Dizia que era natural de Congonhas e que estava indignada com a possibilidade de a empresa de mineração CSN, adquirir a Serra que serve de moldura natural para os famosos Profetas de Aleijadinho, que se encontram no adro da Basílica de Bom Jesus de Matozinhos. A CSN pretende aumentar sua produção de 20 para 89 ou mesmo 100 milhões de toneladas de minério, num investimento de 11 bilhões de Reais. Mas não me preocupo somente com o “Patrimônio arquitetônico da Humanidade” (tombado em 1985), disse minha interlocutora, mas com a extensa devastação da Natureza, com consequências absolutamente imprevisíveis para o futuro da região. Trata-se, continuou, de uma ação irrecuperável que compromete diretamente a própria sobrevivência nossa, particularmente a disponibilidade de água, elemento indispensável para qualquer vida. Quando percebeu que eu estava vivamente interessado no assunto e ficou sabendo que eu mesmo me encontrava numa região que está enfrentando uma problemática semelhante, ela prosseguiu a conversa com as seguintes palavras: — o senhor sabe como agem essas mineradoras? É sempre o mesmo procedimento. Começam com uma ensaiada “Audiência Pública”, ganhando facilmente a causa pela influência que têm junto aos poderes públicos. Já percebeu que nos encontramos frente a um gigante com a sensação de total impotência? É comparável à história bíblica do confronto de Davi com Golias (está na Sagrada Escritura no Primeiro Livro de Samuel 17,4-11.32-51). Aparentemente não temos voz nem vez: somos simplesmente esmagados (mas de forma “elegante” e com argumentos aparentemente irrefutáveis!). O procedimento de todas essas empresas de mineração é o mesmo atualmente: começam a enumerar todos os benefícios que suas empresas trazem para a região e sua população: garantia de muitos empregos e um grande desenvolvimento econômico. Consequentemente há um notável aumento da “qualidade de vida” e incremento dos lucros do comércio local. Todos os que forem desapropriados receberão uma “digna indenização” que possibilite recomeçar “em outro lugar”. Abrir-se-á um promissor futuro para as novas gerações que já não sofrerão as condições de penúria e desemprego de seus pais. Enfim: a empresa garantirá um fantástico desenvolvimento. Essa é a propaganda da mineradora, uma ideologia que, evidentemente, mascara a realidade!

Sabe, continuou minha interlocutora, as empresas de que estamos falando aqui são super-ricas. Têm tanto dinheiro que podem comprar absolutamente quase tudo. E diante de suas ofertas pecuniárias praticamente todos cedem, pois o dinheiro é altamente sedutor. Compram até a consciência das pessoas e seus valores éticos. Falam em “minimizar os impactos ambientais”, contribuindo diretamente para melhorar as infraestruturas da cidade ou bairro, asfaltando ruas e financiando postos de saúde e creches. Nas escolas públicas implantam programas para mostrar a importância da exploração do minério para o desenvolvimento do país e o melhoramento do local onde se encontra a escola. Tudo isso, é claro, dentro do ângulo ideológico de interesse deles! Logicamente, uma visão ecológica mais ampla e profunda não entra na lógica desse discurso.

Quero dizer mais uma coisa, concluiu a moça. Aqueles que se opõem aos planos e projetos dessas empresas, ou fazem justificados questionamentos, sofrerão imediatamente (ou a longo prazo) as consequências, tais como o isolamento, a ridicularização e, em casos extremos — como Chico Mendes (1944-1988) — a eliminação. Tudo será feito para que mudem de opinião. Propostas sedutoras serão apresentadas para que se calem, pois empresas desse porte temem que haja uma conscientização da população que possa tornar-se um obstáculo particularmente incômodo para a expansão de seu empreendimento. Ela ainda estava falando quando a secretária avisou que o médico tinha chegado. Minha interlocutora seria a primeira a ser atendida. Antes de entrar no consultório, ainda disse: Não deixe de aprofundar a questão que abordamos aqui. A luta é dura e parece ingrata, mas pelo menos se tem a consciência tranquila de um dever cumprido: defender a terra, nossa Mãe Comum, que nos deu a vida e nos sustenta. Não apenas estamos sobre a Terra, mas fazemos parte dela. Portanto, ferindo-a mortalmente condenamo-nos a nós mesmos!”

Essa conversa gravou-se profundamente em minha mente e coração. Senti a necessidade de aprofundar seu conteúdo, ampliando-o e dar-lhe um embasamento a partir de conhecimentos ecológicos de grandes ambientalistas. Ressoou, igualmente, em meu íntimo a palavra de Deus, sempre atual e oportuna, expressa no Salmo 23/24: “Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra, o mundo inteiro com os seres que o povoam”.

Concluímos com as famosas palavras do cacique Seattle, indígena norte-americano da tribo Suquamish, que, em meados do século XIX (portanto, há mais de 150 anos!), proferiu um discurso de inspiração ecológica que mantém plena atualidade em nossos dias: “… Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é o mesmo que outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã nem sua amiga, e, depois de esgotá-la vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem nenhum sentimento. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim porque o homem vermelho seria um selvagem que nada compreende… TUDO QUANTO FERE A TERRA, FERE TAMBÉM OS FILHOS DA TERRA!”

C-4, Nossa Senhora da Paz (Farofa),
frater Henrique Cristiano José Matos, 27-10-2012

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