Data : 03/10/2015

Dados sujeitos a alteração sem aviso prévio.

O conteúdo deste material on-line não expressa, necessariamente, a nossa opinião.

Reportar erro

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA
Síntese da Bula Misericordiae Vultus (11-4-2015) do Papa Francisco

INTRODUÇÃO: significado e motivação

BustoO Jubileu da Misericórdia “será celebrado, quer em Roma, quer nas Igrejas particulares, como sinal visível da comunhão da Igreja inteira” [5]. Iniciará no dia 8 de dezembro de 2015 e terminará aos 20 de novembro de 2016. O lema deste Ano Santo Extraordinário será: Misericordiosos como o Pai. “Na misericórdia, temos a prova de como Deus ama. Ele dá tudo de si mesmo, para sempre, gratuitamente e sem pedir nada em troca. Vem em nosso auxílio, quando o invocamos” [14].

[Os números entre colchetes remetem à numeração do documento original]

1. É MISSÃO DA IGREJA ANUNCIAR E VIVER A MISERICÓRDIA

Não há dúvida de que “a credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo” [10]. O próprio Jesus “declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos. Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para conosco” [9].
A abertura do Ano da Misericórdia coincide com o quinquagésimo aniversário do solene encerramento do Concílio Vaticano II (8 de dezembro de 1965), pelo Papa Paulo VI que, no seu discurso de despedida, disse que o Concílio quis falar ao mundo atual “não com presságios funestos mas com mensagens de esperança e palavras de confiança. Não só respeitou mas também honrou os valores humanos, apoiou todas as suas iniciativas e, depois de os purificar, aprovou todos os seus esforços [7]. Na sua alocução ressoavam as palavras de seu antecessor, João XXIII, na abertura do 21º Concílio Ecumênico (11-10-1962): “Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade. (…) A Igreja Católica, levantando por meio deste Concílio Ecumênico o facho da verdade religiosa, deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade com os filhos dela separados” [6].

Papa50 Anos depois do Vaticano II, — afirma o Papa Francisco — ”a Igreja sente, fortemente, a urgência de anunciar a misericórdia de Deus. A sua vida é autêntica e credível, quando faz da misericórdia seu convicto anúncio. Sabe que a sua missão primeira, sobretudo uma época como a nossa, cheia de grandes esperanças e fortes contradições, é a de introduzir a todos no grande mistério da misericórdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo” [25]. Acolhamos novamente — continua o Pontífice — as palavras de João Paulo II, citadas na sua Encíclica Dives in misericordia (30-11-1980): “A Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora” [11].

Efetivamente, “a Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir ninguém. No nosso tempo, em que a Igreja está comprometida na nova evangelização, o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia” [12]. Antes de tudo, a Comunidade Eclesial é chamada “a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo. Do coração da Trindade, do íntimo mais profundo do mistério de Deus, brota e flui incessantemente a grande torrente da misericórdia. Esta fonte nunca poderá esgotar-se, por maior que seja o número daqueles que dela se abeirem. Sempre que alguém tiver necessidade poderá aceder a ela, porque a misericórdia de Deus não tem fim. Quanto insondável é a profundidade do mistério que encerra, tanto é inesgotável a riqueza que dele provém” [25].

O Papa Francisco faz votos que “os anos futuros sejam permeados de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade e a ternura de Deus! A todos, crentes e afastados, possa chegar o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós” [5]. Queremos — prossegue o Papa — que o próximo Ano Santo traga consigo “a riqueza da missão de Jesus que ressoa nas palavras do Profeta: levar uma palavra e um gesto de consolação aos pobres, anunciar a libertação a quantos são prisioneiros das novas escravidões da sociedade contemporânea, devolver a vista a quem já não consegue ver porque vive curvado sobre si mesmo, e restituir dignidade àqueles que dela se viram privados. A pregação de Jesus torna-se novamente visível nas respostas de fé que o testemunho dos cristãos é chamado a dar” [16].

2. MISERICÓRDIA É O CORAÇÃO DA REVELAÇÃO DIVINA

“Com o olhar fixo em Jesus e no seu rosto misericordioso, podemos individuar o amor da Santíssima Trindade. A missão, que Jesus recebeu do Pai, foi a de revelar o mistério do amor divino na sua plenitude. « Deus é amor » (1Jo 4, 8.16): afirma-o, pela primeira e única vez em toda a Escritura, o evangelista João” [8]. No Jesus histórico “tudo fala de misericórdia. Nele nada há que seja desprovido de compaixão” [8]. De fato, ele é “o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré. O Pai, ‘rico em misericórdia’ (Ef 2, 4), depois de ter revelado o seu nome a Moisés como ‘Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e fidelidade’ (Ex 34, 6), não cessou de dar a conhecer, de vários modos e em muitos momentos da história, a sua natureza divina com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa[1]. Na história salvífica experimentamos que “a misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo das suas vísceras. É verdadeiramente caso para dizer que se trata de um amor ‘visceral’. Provém do íntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão” [6].

Flor
Jesus de Nazaré é a personificação da misericórdia divina: “Vendo que a multidão de pessoas que o seguia estava cansada e abatida, Jesus sentiu, no fundo do coração, uma intensa compaixão por elas (cf. Mt 9, 36). Em virtude deste amor compassivo, curou os doentes que lhe foram apresentados (cf. Mt 14, 14) e, com poucos pães e peixes, saciou grandes multidões (cf. Mt 15, 37). Em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia, com a qual lia no coração dos seus interlocutores e dava resposta às necessidades mais autênticas que tinham” [8].
“Diante da visão de uma justiça como mera observância da lei, que julga dividindo as pessoas em justo e pecadores, Jesus procura mostrar o grande dom da misericórdia que busca os pecadores para lhes oferecer o perdão e a salvação. Compreende-se que Jesus, por causa desta sua visão tão libertadora e fonte de renovação, tenha sido rejeitado pelos fariseus e os doutores da lei. Estes, para ser fiéis à lei, limitavam-se a colocar pesos sobre os ombros das pessoas, anulando porém a misericórdia do Pai. O apelo à observância da lei não pode obstaculizar a atenção às necessidades que afetam a dignidade das pessoas” [20]. Contrariamente aos legalistas, Jesus colocaa misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé: ‘Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia’ (Mt 5, 7) é a bem-aventurança em que devemos inspirar-nos” [9].

3. ELEMENTOS BÍBLICOS DO VIVER MISERICORDIOSO

Na Sagrada Escritura a misericórdia “é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco. Ele não se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o amor nunca poderia ser uma palavra abstrata. Por sua própria natureza, é vida concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na atividade de todos os dias. A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele sente-se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados, também nós, a ser misericordiosos uns para com os outros” [9].

O refrão que aparece depois de cada versículo do Salmo 136: Eterna é a sua misericórdia!, envolve o conjunto da história de Israel. Sim, “em virtude da misericórdia, todos os acontecimentos do Antigo Testamento aparecem cheios de um valor salvífico profundo. A misericórdia torna a história de Deus com Israel uma história da salvação. O fato de repetir continuamente ‘eterna é a sua misericórdia’, como faz o Salmo, parece querer romper o círculo do espaço e do tempo para inserir tudo no mistério eterno do amor. É como se se quisesse dizer que o homem, não só na história mas também pela eternidade, estará sempre sob o olhar misericordioso do Pai. Não é por acaso que o povo de Israel tenha querido inserir este Salmo – o ‘grande hallel’, como lhe chamam – nas festas litúrgicas mais importantes” [7].

A experiência do profeta Oseias mostra como Deus supera a justiça pela misericórdia. “A época em que viveu este profeta conta-se entre as mais dramáticas da história do povo judeu. O Reino está próximo da destruição; o povo não permaneceu fiel à aliança, afastou-se de Deus e perdeu a fé dos pais. Segundo uma lógica humana, é justo que Deus pense em rejeitar o povo infiel: não observou o pacto estipulado e, consequentemente, merece a devida pena, ou seja, o exílio. Assim o atestam as palavras do profeta: ‘Não voltará para o Egito, mas a Assíria será o seu rei, porque recusaram converter-se’ (Os 11, 5). E, todavia, depois desta reação que faz apelo à justiça, o profeta muda radicalmente a sua linguagem e revela o verdadeiro rosto de Deus: ‘O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera, não voltarei a destruir Efraim; porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti e não me deixo levar pela ira’ (11, 8-9). Santo Agostinho, de certo modo comentando as palavras do profeta, diz: ‘É mais fácil que Deus contenha a ira do que a misericórdia’. [13] É mesmo assim! A ira de Deus dura um instante, ao passo que a sua misericórdia é eterna” [21].

“Nas parábolas dedicadas à misericórdia, Jesus revela a natureza de Deus como a dum Pai que nunca se dá por vencido enquanto não tiver dissolvido o pecado e superada a recusa com a compaixão e a misericórdia” [9]. Nós também somos convidados, diz o Papa Francisco, a viver concretamente este Ano Santo à luz da palavra de Cristo: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Trata-se de um programa de vida tão empenhativo como rico de alegria e paz. O imperativo de Jesus é dirigido a quantos ouvem a sua voz (cf. Lc 6, 27). Portanto, para ser capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio, para meditar a Palavra que nos é dirigida. Deste modo, é possível contemplar a misericórdia de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida” [13].

4. PROPOSTAS E SUGESTÕES PASTORAIS

4.1. Atitudes antimisericordiosas
A doutrina cristã, fundamentada na Sagrada Escritura e na Tradição, nos ensina que “Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base de uma verdadeira justiça” [21]. Adverte o Papa Francisco: “Não caiais na terrível cilada de pensar que a vida depende do dinheiro e que, à vista dele, tudo o mais se torna desprovido de valor e dignidade. Não passa de uma ilusão. Não levamos o dinheiro conosco para o além. O dinheiro não nos dá a verdadeira felicidade. A violência usada para acumular dinheiro que transuda sangue não nos torna poderosos nem imortais” [19]. Dirigindo-se às pessoas fautores ou cúmplices de corrupção, diz: “Esta praga putrefata da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social. A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua prepotência e avidez, destrói os projetos dos fracos e esmaga os mais pobres. É um mal que se esconde nos gestos diários para se estender depois aos escândalos públicos. A corrupção é uma contumácia no pecado, que pretende substituir Deus com a ilusão do dinheiro como forma de poder. É uma obra das trevas, alimentada pela suspeita e a intriga. Corruptio optimi pessima [A corrupção do melhor conduz ao pior]: dizia, com razão, São Gregório Magno (540-604), querendo indicar que ninguém pode sentir-se imune desta tentação. Para a erradicar da vida pessoal e social são necessárias prudência, vigilância, lealdade, transparência, juntamente com a coragem da denúncia. Se não se combate abertamente, mais cedo ou mais tarde torna-nos cúmplices e destrói-nos a vida” [19]. A misericórdia, ao contrário, é “a força que tudo vence, enche o coração de amor e consola com o perdão” [9].

4.2. Ir às periferias existenciais
“Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo” [15].

4.3. Revalorizar o sacramento da reconciliação
“Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança” [10]. Mas, permanecer no caminho do mal “é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa. Deus não se cansa de estender a mão. Está sempre disposto a ouvir” [19]. Como vimos, “a misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar” [21]. “Com convicção, ponhamos novamente no centro o sacramento da Reconciliação, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia. Será, para cada penitente, fonte de verdadeira paz interior” [17]. E neste sentido o Papa pretende, na Quaresma do Ano Santo, enviar Missionários de Misericórdia como “sinais da solicitude materna da Igreja pelo Povo de Deus”, para que “entrem em profundidade na riqueza deste mistério tão fundamental para a fé” [18].

Cruz

4.4. O significado espiritual da Indulgência
“Todos nós fazemos experiência do pecado. Sabemos que somos chamados à perfeição (cf. Mt 5, 48), mas sentimos fortemente o peso do pecado. Ao mesmo tempo que notamos o poder da graça que nos transforma, experimentamos também a força do pecado que nos condiciona. Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequência dos nossos pecados. No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado” [22].

4.5. Maria, Mãe de Misericórdia
A Mãe de Deus “atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém. Dirijamos-lhe a oração, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-lhe que nunca se canse de volver para nós os seus olhos misericordiosos e nos faça dignos de contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus” [24].

Nossa-Senhora

[Releitura em forma de síntese elaborada por frater Henrique Cristiano José Matos, cmm, 18-9-2015]

Deixe uma Resposta

*

captcha *