Data : 13/10/2015

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MEMÓRIAS I

Iniciamos hoje uma nova seção do site do Retiro Vicente de Paulo, dedicada à MEMÓRIA. A primeira contribuição será a recordação da chegada do Frater Henrique ao Brasil, aos 27 de outubro de 1964, ou seja há exatamente 50 anos.

tereretiro

Pedimos que ele mesmo nos fornecesse o texto com algumas fotos.

(A coordençaõ do site RVP)

1. FRATER HENRIQUE: 50 ANOS NO BRASIL

frater Henrique_1964

Frater Henrique 1964

“Numa quarta-feira, dia 5 de agosto de 1964, logo após o almoço, ao sairmos do refeitório, o Mestre dos junioristas (religiosos com votos temporários), frater Petrus van der Westen, tocou-me no ombro, dizendo: “Venha comigo para o meu escritório”. Era, mais ou menos, uma hora da tarde. Ele fechou a porta e disse: “Sente-se um pouco, meu irmão, tenho algo a lhe comunicar”. Logicamente, estava bem curioso: o que seria? Em circunstâncias como aquela, tudo passa por nossa cabeça. Mas, na realidade, a conversa foi breve e objetiva. “Hoje à noite, às 7h em ponto, você deve apresentar-se ao Superior Geral na Casa Generalícia (situada na vizinhança da antiga Casa-Mãe, na cidade de Tilburg, Holanda). Vou adiantar — acrescentou o Mestre — que se trata de um assunto relacionado a uma eventual transferência sua para as Missões. Por enquanto, não quero entrar em detalhes. Amanhã, você volta aqui e me conta o que foi combinado com o Geral. Coragem! Acompanhá-lo-ei com minhas orações”. Supérfluo dizer que, naquela tarde, não consegui fazer grandes coisas. A cabeça não dava para leitura ou estudo. Fui à capela e rezei um terço e mais algumas orações. Participei distraidamente da oração comunitária no final daquela tarde.

Às 19h, estava, trêmulo, à porta do gabinete do Superior Geral. Já tinha escurecido. Apenas algumas fracas luzes iluminavam os longos corredores do Generalato. O porteiro que abrira a porta disse logo: “Oh, você sabe o caminho, não é necessário que eu o acompanhe”. Ao lado da porta do escritório do Superior Geral, havia um letreiro luminoso com três indicações: “entre”, “espere”, “ocupado”. Já me tinham dito que, após o aperto do botão, dever-se-ia esperar para ver qual indicação ia piscar e agir de acordo. Pontualmente às sete horas, coloquei o dedo no botão e, imediatamente, começou a piscar a indicação “entre”. Atravessei a antecâmara, reservada normalmente ao secretário, que, evidentemente, era um frater. Naquela hora, no entanto, este já não se encontrava no local. Bati delicadamente na porta que dava acesso ao ‘santo dos santos’ e quem a abriu foi o próprio Geral! Frater Novatus me recebeu com um misterioso sorriso e disse: “Então, você é frater Christinus (meu nome religioso, recebido ao entrar no noviciado), não é?” “Sim, respondi um tanto tímido. “Bem, sente-se naquela cadeira. Tenho uma pergunta a fazer, que já discuti com seu Mestre. Agora, quero ouvir você mesmo. Na última reunião do Conselho Geral, citou-se o seu nome em relação à nova fundação da Congregação no Brasil. Achamos por bem enviá-lo para lá, logo que terminar seus estudos, portanto, dentro de poucos meses”. Fiquei tão surpreso que não consegui pronunciar uma única palavra. Do Brasil, não sabia absolutamente nada. Só me lembrei ser um grande produtor de café e que, há alguns anos atrás, sua capital tinha sido transferida do Rio de Janeiro para uma nova cidade no interior do país, com o nome de Brasília. Era tudo! O Geral notou minha perplexidade e continuou: “Não fique assustado! Ser religioso é isso mesmo: disponibilidade para ir onde a santa obediência mandar. Mas, a propósito, quero fazer mais uma pergunta: Você está pronto a ser enviado como jovem missionário, embora tenha somente votos temporários?” Lembro que respondi afirmativamente, sem medir o real alcance do meu “sim”. Frater Novatus reagiu: “Está bem, agora pergunto ainda: seus pais concordam com esta transferência?” Fiz-lhe recordar que meus pais já eram falecidos. “Ah, sim, agora me lembro”, disse o Geral. “Então, fica tudo ainda mais fácil. Prepare-se bem para os exames finais e logo depois providenciaremos a sua viagem. Não se preocupe com malas e coisas assim. De tudo isso, o Procurador das Missões, frater Engelbert Verrijt (1901-1998) tomará conta!” Algum tempo depois, fiquei sabendo que a pergunta sobre a anuência dos pais era protocolar, exigida pela legislação particular da Congregação ainda em vigor. De fato, os pais poderiam, pelo menos teoricamente, impedir que um filho religioso saísse do território nacional.

No dia seguinte, logo após o café da manhã, fui me encontrar com o nosso Mestre, dando-lhe um breve relatório da minha audiência com o Superior Geral, que, na realidade, durara não mais do que 12 minutos. Frater Petrus bateu nas minhas costas e disse: “Coragem, irmão, um grande futuro lhe espera!”. Ainda no mesmo dia, ao terminar o almoço, o Mestre fez a comunicação da minha transferência a toda a comunidade do juniorato. Muitos coirmãos vieram felicitar-me com esta “eleição” e alguns mostraram até uma certa inveja. A proximidade dos exames finais do terceiro ciclo (da Academia Pedagógica) não permitia que o “envio para o exterior” ocupasse por demais a mente. A rotina quotidiana e a forçada concentração nos estudos exigiam toda a atenção.

Despedida_1961

Junioristas 1964

Após breve despedida dos familiares (tudo no espaço de 24 horas!) chegou, finalmente, o dia da partida. Era uma segunda-feira, dia 26 de outubro de 1964, quando, às 16h, saímos de carro — os três futuros missionários; frater Engelbert e o motorista, frater Leo Jansen (1920-1998) — após termos sido saudados à porta da Casa Generalícia, pelo Superior Geral, frater Novatus Vinckx, e por alguns membros do seu Conselho. Fomos direto ao aeroporto internacional de “Schiphol”, perto de Amsterdam, a capital da Holanda, onde embarcamos num vôo da KLM (Real Companhia Aérea), às 22h30, rumo ao Rio de Janeiro. Encerrou-se, assim, uma fase da minha vida que, doravante, pertenceria definitivamente ao passado. Seria, de fato, um passo de no return, um caminhar em direção ao desconhecido, mas “iluminado pela fé”: Apud te, Domini, est fons vitae et in lumine tuo videbimus lumen! — Em vós, Senhor, está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz ( Sl 35/36,10).

O avião, um DC-8, levantou vôo, sem um minuto de atraso. O céu da Holanda já estava completamente escuro. Eu tinha 23 anos. Apenas pontilhavam algumas estrelas, como que perdidas, no firmamento … erat nox …

frater Henrique_2015

Frater Henrique 2015

Fonte: Um religioso em mudança de tempo, volume 1, p.162-164 e 177-178

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