Data : 25/04/2017

Dados sujeitos a alteração sem aviso prévio.

O conteúdo deste material on-line não expressa, necessariamente, a nossa opinião.

Reportar erro

JUVENATO CMM E CASA ANCHIETA – 2ª parte

O Juvenato envolveu inteiramente os religiosos nele implicados e absorveu ingentes recursos financeiros, em boa parte provenientes dos Fráteres de Curaçao, a principal ilha das (então) Antilhas Holandesas, no Mar Caribe. Humanamente falando, os resultados foram nulos, pois o Juvenato não deu nenhum candidato duradouro à Congregação. Não era segredo para ninguém que muitos pais — sobretudo do interior — encontravam nele uma inédita oportunidade para seus filhos terem acesso a uma educação de qualidade, sem ônus financeiro! Talvez, seja exagerado falar de ‘aproveitamento’, mas, pelo menos no subconsciente tanto dos jovens quanto dos pais, pesava muito pouco uma eventual ‘vocação religiosa’. Tenho a impressão de que os fráteres daqueles anos imediatamente pós-conciliares embarcamos num modelo de formação que tinha seus dias contados.

O Decreto Optatam totius (28-10-1965), do Concílio Vaticano II, referente à formação presbiteral, aborda, com bastante circunspecção, a realidade de seminários menores (aos quais pode ser comparada nossa modalidade de Juvenato), dizendo: “sob a direção paternal dos superiores, e com a oportuna cooperação dos pais, levem [os jovens vocacionados] uma vida conveniente à idade, ao espírito e à evolução dos adolescentes, plenamente adaptada às normas da sã psicologia (sic), sem omitir uma adequada experiência das realidades humanas e o contato com a própria família” (n.3). Já naqueles anos, pressentíamos que esse tipo de formação não era mais apropriado para os ‘novos tempos’. Tirar o adolescente do meio natural de sua família e colocá-lo, artificialmente, num ambiente exclusivamente masculino, exatamente num período de sua vida em que a convivência com pais e irmãos/irmãs — e, mui especialmente, com a mãe — é tão fundamental para seu harmonioso desenvolvimento, era, na verdade, um inadvertido contrassenso, indo na direção oposta dos recentes avanços psicopedagógicos. Os tempos estavam mudando rapidamente mas os religiosos em geral continuavam com os modelos de ‘outra época’, confiando que, também agora, dariam certo! Os fatos comprovariam que a escolha feita não era a mais feliz e adequada, pois, já em 1971, o prédio do novo Juvenato iria ser colocado ‘à venda’!

Em pleno séc. XVII, empenhado nas lides de uma adequada formação do clero, São Vicente de Paulo, com fina sensibilidade humana e eclesial, já tinha chamado a atenção para a inconveniência dos seminários menores, como transparece nesta carta dirigida a um Padre da Missão: “É preciso respeitar as ordens do Concílio [de Trento, 1545-1563] como vindas do Espírito Santo. Entretanto, a experiência nos faz ver que a maneira como se executa as ordens do Concílio, no tocante à idade dos seminaristas, não dá bons resultados, nem na Itália, nem na França, já que uns se retiram antes do tempo, outros não têm inclinação para o estado eclesiástico, outros deixam a comunidade e outros fogem dos lugares em que foram educados e se põem a buscar a felicidade em outro lugar” (SV II, p.459).

Com o fechamento do Juvenato Nova Glória (a denominação, por si, já é significativa!), a Região CMM, no Brasil, quis experimentar outra forma de acompanhamento de jovens vocacionados. Em 1973, foi inaugurada uma Casa de Formação, situada à Rua Anchieta, número 646, no Bairro Padre Eustáquio. Na realidade, era uma construção residencial pronta, mas nunca habitada. Para a futura Comunidade, foi elaborado um ‘Projeto de Vida’, baseado no livro Regra para um novo Irmão, um pequeno tratado de Vida Religiosa, surgido no início dos anos 70, nos Países Baixos. Não conhecemos seu autor. Tudo indica, porém, que foi um religioso da Congregação do Santíssimo Sacramento (“Sacramentinos”, instituto religioso fundado em 1856, por São Pedro Julião Eymard), pertencente à Província holandesa. Em dez itens, o mencionado Projeto descreve o ideal da chamada Casa Anchieta.

Destaco os seguintes elementos:
“(1) A Comunidade Anchieta pretende reunir jovens maiores que se sintam convidados a construir sua vida na perspectiva de uma grande abertura e disponibilidade para com Deus e para com os homens, nossos irmãos…
(3) A convivência de irmãos ocupa um lugar central na Comunidade Anchieta, expressando-se numa amizade real, compreensão e ajuda mútua.
Todos nós somos, concretamente, responsáveis pela vida em comum, também em seus aspetos econômicos e financeiros. Regularmente, faremos revisões para confrontar a realidade da vida diária com o ideal que nos propomos.
(4) Deus está no meio de nós! Esta realidade fundamental constitui a base de nossa vida e lhe dá seu sentido último. Devemos abrir-nos a esta realidade, deixar-nos amar pela pessoa de Cristo, em quem transparece toda a bondade e amizade de Deus para conosco.
Reflexão, leitura da Bíblia, oração pessoal e comunitária, mas, antes de tudo, a celebração da Eucaristia, fazem-nos conhecer mais de perto o Cristo e nos envolvem em seu amor, fonte de verdadeira alegria e felicidade…
(10) ‘Muito nos é exigido. Podemos nos aproximar do ideal ao qual nos consideramos chamados somente passo a passo, de modo limitado e imperfeito’ (citação da Regra de Vida dos Fráteres)”.

A Comunidade de Jovens da Casa Anchieta tinha muito relacionamento com a Comunidade dos Fráteres, que residia na ‘casa de baixo’, uma casa cuja entrada oficial era pela Rua Itororó, n.1106. Com a compra de um novo terreno, localizado entre as duas propriedades, foi possível fazer uma passagem ‘por dentro’, interligando as duas residências.

O fichário — ainda existente — registra um total de 40 jovens que passaram pela Casa Anchieta, entre 1973 e 1981. Alguns nomes merecem ser recordados. Entre os primeiros moradores, estão Daniel Adolpho Cerqueira (1953) e Afonso Ribeiro de Oliveira (1951), este último — junto com o então frater-juniorista José Maria da Costa — um dos coordenadores do primeiro encontro do REVENSO, no Sítio ‘Nova Glória’, em Mateus Leme (1974). Jovens daquele tempo que deixaram boas lembranças são: Samir de Freitas Bejjani (1957), Wagemann Teixeira Matias (1955) e Pedro Meneguetti (1960).

No contexto da Casa Anchieta, não pode ser esquecida a figura singular de Hilton Dias da Silva (1951-1981), tragicamente morto num afogamento no litoral capixaba, no dia 1º de janeiro de 1981. Entrara na comunidade no início de 1978. Era uma pessoa de grande simplicidade e incomuns qualidades humanas. Negro e órfão de pai e mãe, empregara-se na TELEMIG (a então Companhia Telefônica de Minas Gerais). Na mensagem que frater Henrique escreveu dias depois de seu inesperado falecimento (27-1-1981), pode-se ler: “…Embora não sendo seminarista [a Casa Anchieta já tinha sido, naquele ano, integrada ao Seminário de que falaremos em seguida], Hilton morava conosco há três anos. Gozava de grande estima no grupo por seu modo de ser: simples, honesto, amigo de todos, vivendo de uma riqueza interior que evidenciava sua profunda fé em Jesus Cristo. Sua repentina morte causou um verdadeiro impacto aqui em casa e também no Grupo de Jovens, REVENSO, do qual Hilton fazia parte…”. A vivência da humildade era conatural à pessoa de Hilton, que tinha 27 anos quando entrou na Casa Anchieta.

Dez anos após sua morte, ainda era lembrado. Assim, um sacerdote salesiano que o conhecera escreveu uma carta em que recordava carinhosamente a figura de Hilton. Citou, naquela ocasião, o seguinte trecho de um sermão de São Francisco de Sales: “Ó nobre virtude da humildade, tão necessária ao ser humano nesta vida mortal! Não é sem razão que se diz que ela é a base e o fundamento de todas as virtudes. E, ainda que ela não seja a primeira — a caridade e o amor a Deus a ultrapassam em dignidade e excelência — no entanto, a caridade tem uma tal conformidade e simpatia com a humildade que elas não vivem jamais uma sem a outra… Sem dúvida, a divina sabedoria sempre olhou com bons olhos os humildes, humilhou e rebaixou aqueles que se exaltam e exalta aqueles que se humilham. Assim o canta nossa gloriosa Mestra, Nossa Senhora, em seu sagrado Cântico: ‘Depôs do trono os poderosos e exaltou os humildes’ (Lc 1,52). Aqueles que se exaltam serão humilhados, aqueles que querem colocar seu trono nas nuvens serão rebaixados. E os pobres, que se abaixam e se humilham, serão exaltados. Deus, que ama os humildes, se comunicará a eles e lhes dará o seu Espírito, pelo qual operarão grandes coisas”(Sermão para o terceiro Domingo do Advento, IV, 33 e 35).

Veja algumas fotos abaixo.

 JUVENATO CMM E CASA ANCHIETA