Data : 14/09/2015

Dados sujeitos a alteração sem aviso prévio.

O conteúdo deste material on-line não expressa, necessariamente, a nossa opinião.

Reportar erro

Jesus, nosso Irmão misericordioso, no contexto latino-americano, hoje

INTRODUÇÃO

misericordioso5

Durante muito tempo a vivência da fé na América Latina aconteceu de forma tranqüila e uniforme. De um lado, as manifestações populares da religião, de matriz medieval, introduzidas no Brasil pelos portugueses na época colonial, com posteriores contribuições específicas de indígenas e negros, dando origem a um sincretismo sui generis. De outro, a doutrina oficial e a liturgia romana, sustentadas pelo clero e apoiadas pelo Estado dentro do regime do padroado. A religião era pensada e praticada como totalidade autônoma, sendo, não raras vezes, instrumentalizada por interesses políticos e econômicos do Estado lusitano. Após a Proclamação da República, em 1889, segue um relativamente curto período de laicismo, para depois ser reimplantado o regime de cristandade, com a aproximação e aliança de Igreja e Estado. Somente por volta de 1960 esta figura cederá lugar a um cristianismo socialmente engajado e politicamente questionador. Surge então uma cristologia que se volta para o Jesus histórico com sua prática libertadora.
É interessante observar que na América Latina historicamente a imagem de Cristo e do sofrimento humano estão intimamente relacionados. Isso se evidencia no Brasil, e particularmente em Minas Gerais, na devoção do Bom Jesus: o Jesus sofredor simboliza um povo crucificado no quotidiano da vida. O grande artista e mulato Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa, 1730-1814) conseguiu expressar maravilhosamente nas suas esculturas sacras toda uma situação de sofrimento, exploração e marginalização de amplas camadas da população colonial. O povo simples se identifica com este Homem das Dores que se mostra compassivo para com este mesmo povo. É aliás sintomático que a “Semana Santa” nas manifestações populares da fé culmina na Sexta-feira Santa, sendo a Páscoa uma espécie de apêndice deste período de intensa vivência religiosa.

misericordioso2
Na América Latina a figura de Cristo sofredor é, de fato, diretamente vinculada à complexa e dura realidade do nosso sub-continente, com sua exploração crônica e conflitiva convivência social.

1. JESUS HISTÓRICO: PONTO DE PARTIDA

Na cristologia pós-conciliar, a Igreja na América Latina privilegiou nitidamente a figura de Jesus histórico, o Profeta do Reino. Partiu-se da convicção de que Jesus de Nazaré é o caminho mais adequado para podermos chegar à totalidade do mistério de Cristo. E o mais característico de Jesus enquanto histórico é o seu estar situado no meio dos pobres, comprometendo-se com sua libertação.
Jesus é o Enviado do Pai, portador da Boa Notícia de vida para todos e vida “em plenitude” (cf. Jo 10,10). Nesta sua missão Jesus se identifica conosco, encarna-se na nossa realidade. Torna-se radicalmente solidário com os homens, mas nesta sua solidariedade privilegia os menos amados, os excluídos, os pobres e pecadores. Semelhante percepção evangélica calha fundo na realidade latino-americana. Aliás, sempre esteve presente na sensibilidade religiosa de nosso Continente, mas agora se expressa com força nova. Jesus de Nazaré é experimentado, antes de tudo, como aquele que “prega a boa-nova aos pobres e liberta os cativos” (Lc 4,18). Da proximidade aos pequenos e excluídos faz o critério de sua ação: comove-se diante do sofrimento das pessoas, denuncia a opressão, defende os pobres, envolve-se nos conflitos e, conseqüentemente, é perseguido e morto. Proximidade não é aqui uma categoria abstrata, mas histórica. Significa a inserção humana de Jesus na realidade opressora de seu tempo, a visão clarividente desta realidade e a misericordiosa reação para com as vítimas. O Jesus histórico se fez, efetivamente, irmão de todos, mas de modo especial dos pobres. misericordioso4A esta categoria de pessoas — na realidade a maioria do povo, já no seu tempo — é oferecida em primeiro lugar o Reino, como mostram inequivocamente as Bem-Aventuranças (Mt 5,1-12). A vontade do Pai é que a Boa Notícia deste Reino se converta em boa realidade para os pobres e necessitados. Através de sinais concretos Jesus mostra que o Reino “já chegou” e, de fato, “foi aproximado”: curas, exorcismos e acolhida dos pecadores (cf. Mc 1,39; Mt 8,16; Lc 4,4). Embora não representem a totalidade deste Reino suscitam a esperança de sua vinda plena por obra do Pai.
Assim, os milagres não trazem a salvação total para a realidade oprimida, mas são acenos concretos do acercamento de Deus e, por isso, geram esperança de libertação. Não tornam presente o Reino enquanto transformação estrutural da realidade, mas são clamores que apontam para a realização do Reino definitivo.

A expulsão dos demônios expressa que o Reino e o anti-reino são realidades excludentes que se digladiam entre si. Esta luta acirrada se trava entre os seus mediadores, Jesus e o diabo, e mostra que a vinda do Reino não é pacífica e ingênua, mas implica em combate ativo contra tudo que ameaça ou destrói os valores do Reino de Deus, como projeto de vida.
Enquanto os milagres e os exorcismos indicam a libertação do mal físico e a destruição do poder deste mal, a acolhida do pecador e o perdão dos pecados expressam a libertação interior de forças que escravizam a pessoa por dentro. Jesus liberta, devolvendo a dignidade aos desprezados e marginalizados pela sociedade.
Resumindo: O Jesus histórico revela pela sua pessoa, palavra e obra que Deus não é somente bom para os seres humanos, mas que sua bondade se manifesta em especial ternura para com os pobres e indefesos (cf. Lc 15,11-31). O Homem de Nazaré optou, de fato, pelo pobres e abraçou concretamente a pobreza. Esta é uma novidade importante para a cristologia tradicional, acostumada a basear-se no princípio da imparcialidade: Cristo é universalmente “homem” e salvou todos os homens igualmente. Lemos nas Conclusões de Medellín (1968): “Cristo, nosso Salvador, não só amou os pobres, mas também ‘sendo rico se fez pobre’, viveu na pobreza e fundou sua Igreja como sinal dessa pobreza entre os homens”. Desta forma, o Jesus histórico se aproximou de nós como um irmão compassivo, o “Bom Samaritano” por excelência, que se acercou dos caídos à beira da estrada, convicção da fé que a Religiosidade Popular no Brasil expressou na Devoção do Bom Jesus.

2. SEGUIMENTO: ESSÊNCIA DO SER-CRISTÃO

Já na sua vida pública Jesus convidou diferentes pessoas a segui-lo em comunhão de vida, missão e destino. Indicou assim um caminho definitivo que dá sentido aos demais. Na cristologia latino-americana a sequela Christi tornou-se a mais importante forma de explicitação da existência cristã. Significativa neste contexto é a metáfora do caminho: seguir Jesus é “entrar no seu caminho e percorrê-lo até o fim”. Jesus — afirma Jon Sobrino — não propõe uma doutrina acerca de seu seguimento, mas o oferece e o exige. ‘Quem quiser vir após mim’, é um convite. ‘Segue-me’ é um imperativo. Ao chamar para segui-lo, Jesus de Nazaré não dita normas a serem observadas rigorosamente, não traça antecipadamente projetos a serem realizados, não faz inúmeras e tentadoras promessas a serem cumpridas. Mas faz questão de deixar claro que se trata, antes de tudo, de uma relação pessoal e profunda com ele, implicando numa corajosa ruptura com o passado e na disposição de se iniciar uma existência radicalmente nova.
Seguir Jesus significa simultaneamente: proximidade e movimento. Existe um profundo e íntimo vínculo entre o chamado e o envio. Seguimento é colocar-se, como Jesus, a serviço do Reino de Deus, anunciando sua proximidade e realizando os sinais concretos de sua presença. O chamado tem a marca da radicalidade (cf. Mc 1,18; 2,14) e se articula concretamente numa série de renúncias a tudo que possa obstacular a plena disponibilidade ao serviço (cf. Mt 8,21; Lc 9,59; Lc 14,26; Mc 10,21; Mt 19,21), atitude explicável apenas pela absoluta novidade e totalidade do Reino de Deus e do Deus do Reino.
Hoje, a sequela Jesu mostra-se um forte estímulo para o ser-cristão na América Latina. Coloca-se com muito realismo a questão sobre o significado, a relevância e a abrangência do seguimento de Jesus num mundo pervertido por injustiça e opressão.
Ressoa insistentemente a desafiadora pergunta de Deus: “Que fizeste de teu irmão?” (cf. Gn 4,9-10). Realmente, para quem quer seguir o Cristo na realidade latino-americana esta interrogação torna-se vital, devido à escandalosa assimetria social com sua exclusão estrutural, que contradiz frontalmente o projeto do Reino, anunciado e instaurado por Jesus. Esta realidade já não pode mais ser ocultada e entra de cheio nas opções dos discípulos do Senhor neste Continente. De fato, Jesus propôs o amor como fundamento distintivo para seus seguidores, o que significa uma vida de pró-existência, descentrada de si mesma e voltada para o próximo.

“A prática cristã, hoje, deve partir do miserior super turbas de Jesus, considerando as multidões não só como pobres individuais e pacíficos, mas como coletividades, povos inteiros na miséria e que buscam libertação. Deve continuar fazendo ‘os milagres’ de Jesus hoje, como a promoção da justiça, forma estrutural da caridade; deve prosseguir as ‘controvérsias’, ‘denúncias’ dos opressores, os ‘desmascaramentos’ e ‘exorcismo’ dos ídolos da morte. Prosseguir a missão de Jesus tem hoje, como parte essencial, o anúncio da boa-nova da libertação aos pobres e o serviço para a sua realização”. — (Jon Sobrino)

3. EVANGELIZAR: MISSÃO DE JUSTIÇA LIBERTADORA NA SOLIDARIEDADE FRATERNA

Desde os anos 70 do século passado a teologia latino-americana começou a insistir mais fortemente numa correta articulação da fé com a práxis cristã, partindo do contexto histórico de injustiça institucionalizada, buscando a libertação integral da pessoa. Constatou-se um certo paralelismo entre a situação da América Latina, hoje, e a situação do tempo de Jesus. A semelhança é evidente sobretudo no que se refere à miséria, à repressão e à exclusão. O horizonte de Jesus de Nazaré foi a luta contra a morte, a favor da vida. A percepção de o Jesus histórico colocar no centro de sua Boa Nova os pobres (Lc 4,18) adquiriu um significado muito denso entre nós. Descobrimos que a relação entre Reino e pobres, encontrada nos Evangelhos é fundamental para se compreender o próprio Jesus, sua missão e seu convite para segui-lo. Embora no relato evangélico não exista um conceito unívoco de pobres, e muito menos uma teoria a respeito da pobreza, não há dúvida sobre a pergunta quem são os pobres para Jesus. São aqueles que se encontram à margem da história, que são oprimidos pela sociedade e por ela segregados. Desses pobres se diz que o Reino de Deus é deles, um Reino cujo conteúdo mínimo, mas fundamental, é a vida e a dignidade do ser humano. E é a esses pobres que Jesus envia hoje de novo seus seguidores e seguidoras para anunciar em palavra e ação a chegada do Reino.

misericordioso3
Na América Latina há dois marcos referenciais da missão evangelizadora que atingem mais diretamente a sequela Christi: a irrupção dos pobres na sociedade e na Igreja e a participação dos cristãos, em nome do Evangelho, na luta pela libertação integral dessas pessoas. O seguimento reveste assim uma solidariedade existencial com os “irmãos sofredores de Jesus”, aqueles “que estão por baixo”, cuja dignidade é vilipendiada e sua vida ameaçada. Não se trata só de indivíduos, mas de coletividades, de inteiros povos crucificados. Em relação a eles Jesus age “movido por misericórdia”. Para seus seguidores esta atitude deve ser igualmente decisiva: tornar-se, como Jesus, um irmão compassivo que se aproxima solidariamente dos sofredores, abrindo-lhes perspectivas de vida nova, de verdadeira libertação. Desta forma os cristãos colaboram efetivamente na construção de um mundo sem exclusões, e na edificação de uma sociedade justa e misericordiosamente fraterna. Tornam-se atuais as palavras proféticas de Miquéias (6,8): “Praticar a justiça, amar com ternura, caminhar humildemente com Deus na história”, e podemos acrescentar com espírito evangélico: “com alegria e esperança”.
A devoção popular do Bom Jesus, Homem das Dores, compassivamente presente junto ao povo, adquire nesta perspectiva uma dimensão verdadeiramente libertadora: a esperança de Ressurreição, de vida restaurada, onde a justiça e a dignidade humana se tornam historicamente relevantes.

frater Henrique Cristiano José Matos,cmm