APC — ”Apoio à Pastoral Carcerária”,
Obra social anexa ao Retiro Vicente de Paulo

acaosocialEm 2004, formou-se, no Bairro Nossa Senhora da Paz, popularmente conhecido como ‘Farofa’, no município de São Joaquim de Bicas, Estado de Minas Gerais, um grupo de pessoas que queria abraçar um estilo de vida inspirado na vivência da misericórdia. Suas raízes estão nas reflexões semanais, realizadas, por rodízio, em casas de família, desde 2002, nas quintas-feiras à noite. Entraram na história da comunidade local com a denominação ‘Encontros de Misericórdia’ (hoje, meados de 2014, chegamos quase ao número de 500!). O desejo do grupo gerou um projeto de inesperadas dimensões. Em 7 de abril de 2004 foi fundada a AMOM, ‘Associação No Movimento da Misericórdia’, durante alguns anos uma entidade juridicamente independente, que, em 2012, foi oficialmente integrada na ASSEDINS (Associação Educacional dos Irmãos de Nossa Senhora).

A AMOM tem um grupo fixo e um amplo círculo de simpatizantes e colaboradores. Importante subsídio de suas reflexões e guia de ação foi o livro No Movimento de Misericórdia, que tem como subtítulo: “Aproximação ao coração da espiritualidade cristã” (Editora O Lutador, Belo Horizonte, 1996, 203 páginas).acao2

No decorrer do tempo os integrantes da AMOM começaram a sentir falta de uma ‘ação’ mais direta e eficiente para viver concretamente a ‘espiritualidade de misericórdia’. Seguiu-se um demorado processo de discernimento: qual atividade seria mais conveniente e realizável dentro de suas reais condições? Indiscutivelmente, foi o Espírito Santo que indicou a direção quando, certo dia, um dos membros chegou com o propósito de fazer algo ‘para os presos’ do Complexo Prisional existente no território do município. Houve inicialmente uma compreensível resistência e surgiram muitas dúvidas. O primeiro contato, feito com o Diretor de Segurança da Penitenciária ‘Professor Jasón Soares Albergaria’ foi animador e abriu o caminho para uma efetiva atuação.

acao4Em novembro de 2009 aconteceu a primeira visita. Um misto de temor e esperança invadiu os visitantes que, na realidade, compartilharam os preconceitos comuns na sociedade, a respeito de pessoas presas: bandidos, vagabundos, perigosos, marginais, que devem ser mantidos à distância! Não podemos negar que as impressões iniciais eram chocantes: encontramos não poucos detentos em estado de quase total abandono, sem contato com seus familiares e privados até das coisas mais elementares para um ser humano. Impressionou o elevado número de detentos jovens, entre 19 e 30 anos, muitos deles viciados em drogas.

Confinados em pequenos cubículos, convivem promiscuamente a maior parte do dia, dormindo, comendo, tomando banho, defecando, tudo naquele reduzido espaço da cela. Saídas somente para o ‘banho de sol’, uma vez por dia, ou para eventuais ‘atendimentos’. Notamos logo que muitos desses jovens eram provenientes de famílias desestruturadas ou quebradas e que estavam acostumados a conviver com situações de violência. Mas o que mais chamou nossa atenção, nas sucessivas visitas semanais, foi a ociosidade quase generalizada dos presos, não obstante a legislação determinar que numa penitenciária haja atividades socioeducativas, ensino escolar e trabalhos manuais, que são um ‘direito’ do preso!

Quando foram partilhadas as primeiras experiências das visitas, ouvimos frases como estas: ‘Deus me livre! Não vale a pena investir em preso, é tempo perdido’. Um padre que por acaso passou na comunidade (nunca me esqueci desse episódio!) exclamou: “Graças a Deus não tenho presídio na minha paróquia, pois só traz problemas para a pastoral!” Em geral, notamos apatia, indiferença e certa aversão quando falamos de ‘pastoral carcerária’. Pouquíssimos católicos sabem do que efetivamente se trata e alguns questionam abertamente sua validade, sob a alegação de que ‘bandido não tem jeito mesmo’!

Apesar de receber pouco apoio, os pioneiros continuaram as visitas semanais aos presos e, lentamente, começou a estruturar-se o que conhecemos como ‘pastoral carcerária’, organicamente articulada com o respectivo setor da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), tanto em nível nacional quanto estadual.

Ao longo do tempo,acao1 aprendemos que nossa aproximação ao preso não pode ser repressiva nem moralizante. Antes de tudo, é necessário que se criem laços de confiança mútua. O detento deve sentir que o visitador quer ajudá-lo a ‘reconstruir’ sua vida, valorizando-o como pessoa que tem condições para ‘recomeçar’ e ‘ reconquistar’ seu lugar na sociedade. Percebendo que seu interlocutor só tem em vista seu bem, mostrando que está disposto a animá-lo e a lutar junto com ele, independente de sua confissão religiosa, surge a base para um trabalho fecundo. Em vez de ‘pregador’ ou ‘explicitador de conteúdos religiosos’, o agente de pastoral torna-se um amigo, um confidente, que, como próximo, vai ao encontro do ‘homem caído à beira da estrada’ (cf. Lc 10,33), ‘movido de compaixão’. Sua aproximação não fica limitada a uma ‘observação distante’ (um simples VER), nem permanece numa humana ‘compaixão’ (SENTIR), mas chega a ações concretas, no sentido de ‘levantar o caído’, colocando-o sobre os próprios pés (AGIR), a fim de que ande, ele próprio, por ‘caminhos novos’ que abram perspectivas de vida e ‘vida em plenitude’ (cf. Jo 10,10). Temos aqui a dinâmica evangélica da misericórdia, como Jesus ensinou e praticou, quando vivia entre nós, e que deixou explicitada para seus seguidores na Parábola do Bom Samaritano (Lc 10,29-37).

Em 14 de novembro de 2011, graças ao apoio financeiro da Congregação dos Fráteres de Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia (CMM), Região Brasil, foi inaugurado um pequeno Centro de Atendimento ao Preso (APC – Apoio à Pastoral Carcerária), com uma eficiente infraestrutura: escritório, telefone, computador, internet, xerox e, sobretudo, uma funcionária de tempo integral. Estiveram presentes nessa ocasião o Bispo diocesano de Divinópolis, o Coordenador da Pastoral Carcerária da diocese, o Superior Regional dos Fráteres no Brasil, a Juíza da Vara de Execuções Criminais da Comarca de Igarapé, o Diretor de Segurança da Penitenciária Prof. Jasón Soares Albergaria, a Diretora de Ressocialização do Presídio Bicas II, além de outros representantes civis e eclesiásticos e, naturalmente, os membros da AMOM.

Foram formadas duas equipes de pastoral que, em dias distintos, visitam os presos da Penitenciária, enquanto, em outro dia, há atendimento individual de detentos do Presídio Bicas II. Regularmente as equipes se reúnem para avaliação e planejamento das suas atividades. No entanto, sentíamos falta de um maior aprofundamento de nossa missão junto à população prisional e, igualmente, de uma espiritualidade sólida para manter a motivação religiosa de nossa ação. Enfim, queríamos conhecer melhor o que é uma verdadeira ‘pastoral carcerária’, serviço tão bem delineado nas diretrizes da CNBB. Foi nesse contexto que nasceu o presente subsídio. Seu ponto de partida é, inegavelmente, a própria palavra de Jesus, contida tanto no seu discurso-programa na sinagoga de Nazaré: “O Senhor me enviou para proclamar a remissão dos cativos” (Lc 4,18), quanto no julgamento final: “Estive preso e viestes ver-me” (Mt 25,36). Com nosso trabalho junto aos presos, desejamos ser uma presença da Igreja no meio dos encarcerados que, reconhecidamente, são ‘os mais pobres entre os pobres’, já pelo simples fato de serem privados de sua liberdade. A eles queremos levar nossa ajuda humanitária, o consolo espiritual e, sobretudo, uma presença fraterna de solidariedade, tal como aprendemos no Evangelho da Vida que Jesus nos transmitiu na sua pessoa e obra.acao2