A “TRILHA DA MISERICÓRDIA” NO RETIRO VICENTE DE PAULO

Introdução

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Toda a nossa vida é um caminhar. Passo a passo avançamos no tempo e no espaço, até chegarmos ao nosso destino. Estamos sempre ‘em movimento’ e participamos diretamente da evolução que caracteriza a existência de todos os seres que habitam a Terra, também ela mesma, um planeta em ‘permanente mutação’.
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No Novo Testamento Jesus é chamado “o Caminho” (cf. At 9,2; 18, 25; 19, 9.23; 22,4; 24, 14-22).
Seguindo-o (cf. Jo 14, 6-9), na qualidade de discípulo, é que chegaremos ao Pai.

A Carta aos Hebreus apresenta Cristo como o “Caminho novo e vivo” (Hb 10,20) que sustenta os fiéis durante sua caminhada para a “Jerusalém celeste” (Hb 12,22).

A Igreja, povo de Deus, é um ‘povo em marcha’, um povo peregrino (1Pd 2,11) que, aqui na terra, não possui habitação permanente, estando sempre à procura da cidade que há de vir (cf. Hb 13, 14).

O caminho de Jesus é radicalmente marcado pela misericórdia. Ele mesmo é a mais perfeita encarnação da misericórdia divina, realidade que perpassa toda a história da salvação e ressoa, como refrão, nas páginas da Sagrada Escritura.

Trata-se da revelação de Deus como Amor, um Pai celeste de imensa caridade e ternura, que não exclui ninguém de seu desvelo paterno, mas trilha3privilegia aqueles que necessitam de uma explicitação mais intensa de seu amor pelo fato de serem marginalizados, pobres, pecadores, doentes ou se encontrarem num estado de sofrimento, de dependência . Assim, misericórdia é o amor compassivo que identifica nosso Deus como Pai.

Na pessoa histórica de Jesus este ser-misericordioso nos é revelado em plenitude. Seguindo o Cristo aprenderemos o que é efetivamente viver a misericórdia por meio da qual atingiremos diretamente o coração de Deus.

O caminho que percorreremos procura colocar-nos na ‘trilha de Jesus’, nosso irmão misericordioso, confrontando-nos com suas palavras e seus gestos. Assim, participaremos de sua vida, interiorizaremos suas mais profundas aspirações e seremos introduzidos na Verdade, que dá acesso ao sentido derradeiro de nossa existência.

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Clique nos títulos abaixo.

TRILHA DA MISERICÓRDIA

  • Marco 1

    Conhece três impulsos que o tornam evangelicamente operacional: VER a realidade, INTERIORIZAR o que se vê, entrar em AÇÃO. O texto bíblico que maravilhosamente explicita o que é misericórdia está em Lc 10, 25-37: ‘O bom samaritano’. Jesus conclui seu ensinamento com o convite feito ao seu interlocutor: “Vai e faze tu a mesma coisa”, ou seja: torna-te, de fato, ‘próximo’ daquele que sofre ou está em necessidade, pois só assim poderás viver!

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  • MARCO 2

    A Terra é uma imensa rede de vida. Não estamos sobre a terra, mas somos a terra! Habitamos o planeta junto com múltiplos outros seres vivos, que merecem respeito e têm direitos inalienáveis à vida. Misericórdia é ter clara percepção dessa realidade e abandonar um nefasto antropocentrismo que fez do homem um tirano explorador da Terra, eliminando outros seres e destruindo impiedosamente a Natureza.

  • MARCO 3

    Os animais e as plantas partilham conosco o planeta Terra. Não são ‘seres inferiores’, mas seres diferentes sobre os quais nós, humanos, temos responsabilidade a fim de que possam viver de acordo com seu gênero próprio. Misericórdia é enxergar, com acuidade, o mal que estamos fazendo à nossa Mãe-Terra, explorando-a cruelmente, sem levar em consideração seu direito a uma existência digna.

  • MARCO 4

    Há no nosso mundo gritantes desigualdades entre as populações. Países inteiros sofrem com constantes violências raciais e religiosas, são vítimas de doenças e subnutrição. Misericórdia é ter olhos para essas situações de miséria e sofrimentos crônicos sem ceder à indiferença ou desinteresse.

  • MARCO 5

    Por toda parte encontramos enfermos sem condições de um tratamento adequado. Basta visitar hospitais públicos ou entrar em postos de saúde. Quem não dispõe de um plano de saúde particular está frequentemente entregue à própria sorte. Quantos sofrimentos, quanto desespero, quanta incerteza! Misericórdia é aproximar- se da pessoa doente, conhecer sua situação com suas necessidades específicas. É fácil ‘dar a volta’ para não ser incomodado, pensando: ‘o problema não é meu’!.

  • MARCO 6

    Uma triste realidade é o sistema prisional em nosso país. Muitas pessoas não querem nem saber que existem ‘casas de detenção’ e a maioria dos cidadãos desconhece as reais condições dos presos. Quase nunca se perguntam para que serve a prisão e se a ressocialização é possível no atual sistema. Misericórdia é não ignorar a grave a realidade prisional, visitar os presos ou, pelo menos, querer ajudá-los para que outros possam praticar esta ‘obra de misericórdia” (cf Mt, 25,36) e levar aos detentos um pouco de esperança na convicção de que ‘nunca é tarde demais para recomeçar’ !

  • MARCO 7

    Há pobreza de todo tipo e “sempre teremos pobres entre nós” (Mt 26,11). Quantas pessoas não têm as mínimas condições para levar uma vida humana digna, por falta de moradia, emprego, educação e saúde. Outras têm carências afetivas, encontram-se abandonadas ou rejeitadas, às vezes até pela própria família. Existem pobres devido aos vícios que os escravizam com a consequência de viverem isolados de uma sadia convivência social. Misericórdia é detectar as diversas modalidades de pobreza e não ficar indiferente ou omisso .

INTERIORIZAR

  • MARCO 8

    O que estamos fazendo com o nosso Planeta, nossa casa comum? A Terra está gritando por socorro por causa dos maus tratos que diariamente recebe. Ela é nossa Mãe, berço da vida, mas ininterruptamente golpeada e agredida. Exploramo-la sem criar condições para ela se recompor. Hoje começamos a sentir mais fortemente suas reações: aumento da temperatura causada pela destruição da camada de ozônio, a falta de água potável, a desertificação de imensas áreas do planeta, a perda das florestas tropicais e outros fenômenos preocupantes. Misericórdia é sentir, por dentro, as dores da Pacha Mama (a ‘grande mãe’) que nos nutre e sustém e ouvir seus insistentes apelos por mudança de comportamento.

  • DOMUS MISERICORDIAE “FRATER CRISTINO”

    Chegamos a um momento de pausa, um descanso simbólico no caminhar. Encontramo-nos num local privilegiado, no meio de uma vegetação nativa, a única que ainda resta nesta região. Repousamos um pouco, tanto física quanto espiritualmente. A casa (domus) é dedicada ao Frater Cristino Gemen (*27-4-1936 ; +4-1-2015) que, durante 12 anos, foi o superior regional dos Fráteres da Região Brasil. Homem simples, sem pretensões pessoais, identificado com o carisma de sua Família Religiosa: ser misericordioso (um vir misericordiae). As três placas de ardósia, aqui colocadas, nos recordam que a misericórdia qualifica o ser humano, mostrando o que há de mais nobre em nossa existência aqui na terra. Em seu conjunto constituem um programa de vida, um ideal que orienta nosso caminhar e evidencia seu sentido pleno. “Sobre nós, Senhor, venha a vossa misericórdia, da mesma forma que em Vós esperamos” (Sl 32/33, 22). “Misericórdia: eis minha única estrela; à sua luz navego sem me desviar” (Santa Teresa de Lisieux, Poesia Viver de Amor, 26-2-1895). “Crê em Mim e põe tua esperança na minha misericórdia. Quando pensas que estás longe de Mim, muitas vezes estou perto de ti, diz o Senhor” (Tomás de Kempis: Imitação de Cristo, 43, 30,3).

  • MARCO 9

    A crueldade contra os animais ainda é uma realidade vergonhosa. Seres que conosco habitam a Terra são usados e abusados a nosso bel-prazer. Que triste sorte cabe aos animais que apenas servem como cobaias em testes científicos ou na indústria de cosméticos, frequentes vezes sem nenhuma necessidade real. O que dizer de animais criados em condições absolutamente inaceitáveis para o abate? Misericórdia é não fechar os olhos aos incontáveis sofrimentos impingidos a esses seres, compadecer-se de seus sofrimentos, suas dores, e perguntar a nós mesmos: este tipo de procedimento pode ser justificado eticamente?

  • MARCO 10

    Vivemos num mundo de crescente violência. Há inteiros grupos populacionais que sofrem perseguições simplesmente por pertencerem a etnias distintas ou confessarem uma religião diferente. É triste o espetáculo diário de milhares de pessoas que tentam fugir de situações humanamente insuportáveis. Em massa procuram países onde podem viver em paz. Muitas vezes encontram resistência e rejeição nas novas regiões para onde se dirigem, especialmente países do ‘primeiro mundo’. Estes começam a fechar suas fronteiras sentindo-se ameaçados em seu bem-estar. Misericórdia é entrar na pele desses refugiados, experimentando — mesmo que seja mentalmente — seu estado de espírito, suas incertezas, emoções e angústias, diante de um mundo completamente desconhecido.

  • MARCO 11

    Nosso país conhece diferenças abissais entre pobres e ricos, entre os socialmente seguros e aqueles que não dispõe praticamente de nenhuma segurança social. No campo da saúde essas diferenças se manifestam em toda a sua brutalidade. Misericórdia é ter sensibilidade para com as pessoas que estão nas filas intermináveis dos postos de saúde, aguardando atendimento médico ou para com aqueles que, há anos, esperam por um transplante, único recurso para poder sobreviver. E se você fosse um deles como reagiria?

  • MARCO 12

    Entrando num presídio ficamos chocados com as situações desumanas em que muitos presos se encontram. Chama a nossa atenção a forçada ociosidade e a insuportável superlotação das unidades prisionais. Misericórdia é abrir o coração para essas realidades que clamam ao céu. É colocar-se na situação de um encarcerado, entrando na sua cela e sentindo interiormente o sofrimento de ser ‘privado da liberdade’. Só assim, talvez, possam entender um pouco das condições infra-humanas da maioria de nossas casas de detenção.

  • MARCO 13

    Passar fome não é apenas ter falta de comida material. Não ter o que comer é ainda uma triste realidade no mundo contemporâneo. A sub-nutrição em amplos setores do planeta representa uma vergonha para a humanidade. Mas há outras formas de fome, a começar pela perda do sentido da vida, pela ausência de uma educação humanizadora, pelo fato de não ter acesso à cultura ou qualificação profissional. Misericórdia é sentir, por dentro, os efeitos dessas fomes endêmicas e comover-se no confronto com tantas pessoas que ‘passam fome’, seja qual for sua modalidade.

AGIR

  • MARCO 14

    Misericórdia é assumir uma nova postura em relação à Terra. Ver nela nossa grande Mãe, que merece reconhecimento, ternura e gratidão. É tratá-la com afeto na convicção de que “tudo quanto fere a Terra, fere diretamente também os filhos da Terra” (Cacique Seattle). Misericórdia é entrar decididamente na defesa da Natureza, promovendo, por todos os meios, sua preservação. Adotar uma nova mentalidade em relação ao meio-ambiente que começa com gestos simples, mas altamente significativos, como a coleta seletiva de lixo e o uso responsável dos recursos hídricos cada vez mais escassos.

  • MARCO 15

    Misericórdia é um estilo de vida que assume todos os seres que, por diversos motivos, correm risco de vida, são fracos, excluídos, desprezados e inferiorizados, dando-lhes uma atenção especial e um trato privilegiado. Não só os humanos, mas, igualmente, os não-humanos que são ameaçados na integridade de suas vidas, tais como os animais explorados e mal-tratados ou em vias de extinção, como também as florestas tropicais e áreas de preservação ambiental, frequentemente objeto da cobiça de poderosas empresas agropecuárias. A misericórdia faz sua a causa desses seres e luta para que sua vida seja garantida e possa desenvolver-se. Assim, misericórdia traz em seu bojo um irrenunciável compromisso ecológico.

  • MARCO 16

    Para o misericordioso, não existe ‘massa sobrante’, ou seja, pessoas ou seres excluídos por causa de sua condição de gênero, etnia, posição social ou religiosa. Nenhum ser vivo, por menor que seja, pode ser desprezado ou ‘coisificado’. A misericórdia cultiva, expressamente, atitudes de solidariedade, compaixão e mútua colaboração. Promove a inclusão de todos, seja humanos ou não, partindo da consciência de formarmos juntos uma grande ‘comunidade de vida’, onde todos possuem o direito de viver e conviver. Na prática da misericórdia não há mais espaço para um arrogante e ilusório antropocentrismo, mas sim relações de dependência que envolvem todos os seres, pois tudo no seio da Mãe Terra se encontra integrado e inter relacionado.

  • MARCO 17

    Uma pessoa imbuída de misericórdia terá sensibilidade aguçada para com as minorias da sociedade: doentes, presos, crianças e adolescentes em situação de risco, idosos abandonados. Não consegue viver tranquilamente sem se comover diante dessas situações de desamparo. Enquanto não fizer algo, não tem paz interior. Mesmo não podendo ajudar pessoalmente, buscará meios para garantir que outros o possam fazer, dando seu apoio moral, financeiro ou material.

  • MARCO 18

    A misericórdia se estende a todos os campos da convivência humana e cósmica. Possui uma dimensão nitidamente holística, pois abarca o conjunto da vida no planeta. Nos nossos dias demostra uma sensibilidade específica para com o grande problema das drogas, sobretudo entre as jovens gerações. Por meios diversos busca ajudar os dependentes químicos a recuperar sua dignidade humana e sua autoconfiança. Dá apoio aos centros de acolhimento e reabilitação, incentivando as iniciativas preventivas e oferecendo trabalho ou cursos de qualificação profissional a recuperados.

  • MARCO 19

    A postura de misericórdia inclui, por lógica interna, atitudes de solidariedade e de partilha. “Ninguém vive para si mesmo, nem morre para si mesmo” (Rm 14,7). Somos seres que vivem em comunidade, onde cada um tem a sua responsabilidade para com o outro, humano ou não. Partilhamos o que existe de mais precioso: a vida. Para o cristão esta vida é Deus e se perpetua nele, ou seja, a vida não perece, mas se plenifica na eternidade, quando participaremos, como filhos, da vida do Pai celeste. Promovendo a vida, protegendo-a, assumimos a causa de nosso Deus e, simultaneamente, nos humanizamos em profundidade. Nesta ação em prol da vida nenhum ser é excluído, pois todas as criaturas, sem exceção, refletem, de uma ou outra forma, a grandeza, a bondade e a beleza do Criador. Daí a sacralidade da vida que não nos pertence como ‘propriedade privada’, mas nos é dada na gratuidade do amor.

  • MARCO 20

    A misericórdia é de tal forma decisiva que, segundo o texto de Mt 25, 31- 40, dela depende nossa salvação ou perdição. As palavras de Jesus sobre o Juízo Final não deixam dúvida. Estão entre as mais incisivas de todo o Novo Testamento. De fato, tocam a essência do ser-cristão e apontam para o coração da Boa Nova de Jesus. Este texto nos questiona em profundidade, colocando diante de nós uma escolha existencial que determina nossa felicidade ou fracasso.

A CHEGADA

No término de nossa caminhada chegamos ao mesmo local de onde partimos: a Ermida do Pai Misericordioso. Entramos neste pequeno santuário, contemplando a bela imagem do Pai que, carinhosamente, abraça seu filho. Lemos o texto de Lc 15, 11- 31, meditando-o em silêncio.

Depois rezamos a Oração do Abando de Charles de Foucauld (1858-1916): Meu Pai, entrego-me a Vós. Fazei de mim o que for do vosso agrado. O que fizerdes de mim, eu vos agradeço. Estou pronto para tudo, aceito tudo, desde que vossa vontade se realize em mim. Deponho minha vida em vossas mãos, eu vo-la dou, meu Deus, com todo amor de meu coração, porque vos amo e porque para mim, é uma necessidade de amor dar-me e entregar-me em vossas mãos, sem medida, com uma confiança infinita, pois sois meu Pai. Amém. Concluímos nossa pequena peregrinação com a oração mais bela e completa que possuímos: o Pai-Nosso, invocando também a Virgem-Mãe, rezando a Ave-Maria, seguida pela saudação à Trindade Santa: Glória ao Pai...

Agradecidos, dizemos com o salmista: “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom! Eterna é a sua misericórdia” (Sl 117/118, 1).

INAUGURAÇÃO

No dia 17 de julho de 2015 começou o retiro espiritual das du... Leia Mais →