Data : 07/12/2015

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8ª Reflexão:

8ª Reflexão: IGREJA E ECOLOGIA: o cuidado da nossa Casa Comum

8reflexao

INTRODUÇÃO
A Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco (24-5-2015), “insere-se no magistério social da Igreja” [15]. A Doutrina Social da Igreja (DSI) faz parte da missão evangelizadora da Comunidade Eclesial, sendo um aspecto fundamental de seu múnus profético. Desde o primeiro documento pontifício propriamente ‘social’, a Encíclica Rerum Novarum (15-5-1891), de Leão XIII, a DSI oferece valiosas referências para compreender as variadas situações e os diversos problemas da sociedade. Trata-se mais de uma ‘orientação para a ação’ (e daí seu caráter ‘pastoral’) do que uma abordagem mais diretamente doutrinal.
Na sua Carta Encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco convida toda a Igreja a “um debate honesto e transparente” [188] sobre a questão ecológica, tendo em vista o “bem comum” de todos que fazem parte da nossa Casa Comum, o planeta Terra. Observa o Papa que “as questões ambientais têm estado cada vez mais presentes na agenda pública e tornaram-se um convite permanente a pensar a longo prazo. Apesar disso, as Cúpulas Mundiais sobre o meio ambiente dos últimos anos não corresponderam às expectativas, porque não alcançaram, por falta de decisão política, acordos ambientais globais realmente significativos e eficazes” [166].
[Os números entre colchetes remetem à numeração oficial do documento]

1. A COMUNIDADE PLANETÁRIA

Tudo que existe na Terra encontra-se interligado e cada ser possui um valor intrínseco “que deve ser reconhecido com carinho e admiração” [42]. Formamos uma imensa ‘família planetária’ e dependemos uns dos outros [138].
Nos últimos séculos a terra está sendo cada vez mais devastada. Atualmente encontra-se “entre os pobres mais abandonados e maltratados” [2], “gemendo e sofrendo as dores de parto” (Rm 8,22). Assistimos a “mudanças climáticas inauditas e a uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências” [24]. Um sintoma particularmente sério é a falta de “água potável e limpa”, pelo fato de ser “uma questão de primordial importância”, sendo “indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos” [28].
O pano de fundo da atual crise ecológica é o modelo econômico vigente, que “divinizou o mercado” [56], impondo o “paradigma tecnocrático” com “a adoração do poder humano sem limites” [122]. Este sistema visa primordialmente um lucro material crescente. Sua lógica parte de uma “busca egoísta” para atender “satisfações imediatas” [162]. Promove e incentiva um “consumo excessivo” para vender seus produtos”, levando as pessoas a “compras e gastos supérfluos” [203]. Tudo que não serve aos restritos interesses do mercado “se torna irrelevante” [122].
O sistema econômico dominante elimina ou marginaliza aqueles que pensam de forma diferente. “Tornou-se anticultural a escolha de um estilo de vida cujos objetivos possam ser, pelo menos em parte, independentes da técnica, dos seus custos e de seu poder globalizante e massificador. (…) Nada fica fora de sua lógica férrea” [108]. Aqui não há espaço “para uma sincera preocupação pelo meio ambiente” e nem “pelos mais frágeis” [196/36].
Existe uma relação íntima entre “degradação ambiental” e “degradação humana e ética” [56]. As formas de “intensa exploração e degradação do meio ambiente” atingem facilmente “uma identidade cultural e o sentido da existência e convivência social” [145]. “Quando as pessoas se tornam autorreferenciais e se isolam na própria consciência, aumentam a sua voracidade: quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, possuir e consumir. Em tal contexto, parece não ser possível, para uma pessoa, aceitar que a realidade lhe assinale limites; neste horizonte, não existe sequer um verdadeiro bem comum. Se este é o tipo de sujeito que tende a predominar numa sociedade, as normas serão respeitadas apenas na medida em que não contradigam as necessidades próprias. Por isso, não pensemos só na possibilidade de terríveis fenômenos climáticos ou de grandes desastres naturais, mas também nas catástrofes resultantes de crises sociais, porque a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e destruição recíproca” [204].
Assim, podemos concluir que “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental” [139]. De fato, “se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais” [119].

O que se percebe na sociedade hodierna é que a realidade econômico-financeiro “tende fortemente a prevalecer sobre a política” [175/109], fato claramente visível “da falência das Cúpulas Mundiais sobre o meio ambiente” [54]. “O drama de uma política focalizada nos resultados imediatos, apoiada também por populações consumistas, torna necessário produzir crescimento a curto prazo. Respondendo a interesses eleitorais, os governos não se aventuram facilmente a irritar a população com medidas que possam afetar o nível de consumo ou pôr em risco investimentos estrangeiros. A construção míope do poder frena a inserção de uma agenda ambiental com visão ampla na agenda pública dos governos” [178]. Via de regra, a política dá prioridade às grandes empresas privadas que seguem cegamente o princípio da maximização dos lucros. “desde que aumente a produção, pouco interessa que isso se consiga à custa dos recursos futuros ou da saúde do meio ambiente; se a derrubada de uma floresta aumenta a produção, ninguém insere no respectivo cálculo a perda que implica desertificar um território, destruir a biodiversidade ou aumentar a poluição. Em outras palavras, as empresas obtêm lucros calculando e pagando uma parte ínfima dos custos” [195]. Não é fenômeno incomum serem as grandes empresas favorecidas pelo poder público, mediante ações fraudulentas e corruptas, que, na realidade, “escondem o verdadeiro impacto ambiental de um projeto, iniciado “sem que tenha havido um processo transparente e dialogal” em vista do “bem comum” [182]. Com promessas grandiloquentes sobre ‘progresso’, ‘desenvolvimento’ e ‘qualidade de vida’, esses poderosos grupos econômicos procuram camuflar seus reais objetivos. A população local sofre com isso e só bem mais tarde se conscientiza que seu habitat se tornou “menos rico e belo”, sendo cada vez mais “limitado e cinzento” devido às perdas ambientais irrecuperáveis [34].
Uma estratégia de mudança, realmente efetiva, “exige repensar a totalidade dos processos, pois não basta incluir considerações ecológicas superficiais, enquanto não se puser em discussão a lógica subjacente à cultura atual” [197]. Frequentes vezes, pessoas ou organizações que começam a questionar os procedimentos das multinacionais — sobretudo tratando-se da extração de recursos naturais, entre os quais o minério de ferro — são ridicularizadas como “sonhadoras românticas” que só trazem “distúrbios” para os negócios! [54].
No contexto sociopolítico em que vivemos prevalece “a ideia de um crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a ‘espremê-lo’ até ao limite e para além do mesmo. Trata-se do falso pressuposto de que existe uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regeneração é possível de imediato e que os efeitos negativos das manipulações da ordem natural podem ser facilmente absorvidos” [106].

2. O RELATO BÍBLICO DA CRIAÇÃO
Num passado não tão distante, o texto bíblico sobre a Criação (Gênesis 1-2) foi interpretado num sentido quase exclusivamente antropocêntrico. Afirmava-se que o ser humano é “dono absoluto” da Terra e dos demais seres [116/200]. Uma hermenêutica correta obriga-nos a corrigir tal distorção, interpretando o mandato de ‘dominar’ como “cultivar e guardar” o jardim do mundo (cf. Gn 2,15). “Enquanto ‘cultivar’ quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, ‘guardar’ significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isso implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a Natureza” [67]. A singularidade do ser humano, no conjunto da Criação, não pode ser “motivo de glória pessoal nem de domínio irresponsável, mas uma capacidade diferente que impõe uma grave responsabilidade derivada de sua fé” (220/81].
“O conjunto do universo, com as suas múltiplas relações, mostra melhor a riqueza inesgotável de Deus. Santo Tomás de Aquino sublinhava, sabiamente, que a multiplicidade e a variedade ‘provêm da intenção do primeiro agente’, o qual quis que ‘o que falta a cada coisa, para representar a bondade divina, seja suprido pelas outras’, pois a sua bondade ‘não pode ser convenientemente representada por uma só criatura’. Por isso, precisamos de individuar a variedade das coisas nas suas múltiplas relações” [86].
Na realidade, as criaturas do mundo “não podem ser consideradas um bem sem dono: ‘Todas são tuas, ó Senhor, que amas a vida’ (Sb11, 26). Isto gera a convicção de que nós e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde” [89]. Na visão cristã, toda a Criação “é um projeto do amor de Deus, em que cada criatura tem um valor e um significado”. Devemos concebê-la “como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal” [76/77]. Destarte, “todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus” [84].
Todos os seres vivos — por mais insignificantes que pareçam — tem um valor próprio diante do Senhor da vida, pelo simples fato de eles existirem. “Precisamente pela sua dignidade única e por ser dotado de inteligência, o ser humano é chamado a respeitar a Criação com suas leis internas” [69]. Poderíamos dizer que em todas as criaturas há uma prioridade do ‘ser em si’ sobre o ‘ser útil para os homens’! Assim, não devem ser vistas “como meros objetos submetidos ao domínio arbitrário do ser humano. “quando se propõe uma visão da natureza unicamente como objeto de lucro e interesse, isso comporta graves consequências também para a sociedade. A visão que consolida o arbítrio do mais forte favoreceu imensas desigualdades, injustiças e violências para a maior parte da humanidade, porque os recursos tornam-se propriedade do primeiro que chega ou de quem tem mais poder: o vencedor leva tudo. O ideal de harmonia, justiça, fraternidade e paz que Jesus propõe situa-se nos antípodas de tal modelo” [82].
A Criação inteira carrega dentro de si uma inconfundível sacralidade, pois Deus “está presente no mais íntimo de cada coisa, sem condicionar a autonomia de sua criatura, e isto dá lugar também à legítima autonomia das realidades terrenas. Esta presença divina, que garante a permanência e o desenvolvimento de cada ser, é a continuação da ação criadora” [80/234].
Para o seguidor de Jesus, o fim último das criaturas não é o ser humano. Todas as criaturas avançam, junto com ele e através dele, para a meta comum, que é Deus, “numa plenitude transcendente em que Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina. Com efeito, o ser humano — dotado de inteligência e amor, atraído, igualmente, pela plenitude de Cristo — é chamado a reconduzir todas as criaturas ao seu Criador” [83/221].

3. UMA ECOLOGIA INTEGRAL
“Não haverá uma nova relação com a Natureza, sem um ser humano novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia” [118]. É verdade, “não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental, se não prestarmos atenção às causas que têm a ver com a degradação humana e social” [48]. Desta forma, “não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus. Seria um individualismo romântico disfarçado de beleza ecológica e um confinamento asfixiante na imanência” [119/70]. Nunca esqueçamos “que tudo está inter-relacionado e que o cuidado para com a própria vida e nossa relação com a Natureza, é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros” [70]. Com realismo deveríamos reconhecer que “não pode ser autêntico um sentimento de uma união íntima com os outros seres da Natureza, se, ao mesmo tempo, não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos” [91]. Numa postura ecológica integral, nada e ninguém fica excluído da comunhão fraterna, pois Deus criou o mundo para todos. “Por conseguinte, toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos” [93], ouvindo “tanto o clamor da Terra como o clamor dos pobres” [49].
“O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade, e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos” [95]. Mas, “se o ser humano se declara autônomo da realidade e se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da sua existência, porque em vez de realizar seu papel de colaborador de Deus na obra da Criação, o homem substitui-se a Deus, e deste modo acaba provocando a revolta da Natureza” [117].
O predomínio da técnica com suas intermináveis intervenções nos ecossistemas está causando profundos desequilíbrios pessoais e sociais. Nós, seres humanos, devemos mudar de rumo. “Falta a consciência de uma origem comum, de uma recíproca pertença e de um futuro partilhado por todos. Esta consciência basilar permitiria o desenvolvimento de novas convicções, novas atitudes e novos estilos de vida” [202]. Estamos diante de grandes desafios, sendo um deles a urgência de nos autotranscender, “rompendo com a consciência isolada e autorreferencialidade”, exigência fundamental para efetivamente “cuidar dos outros e do meio ambiente” [208].
Nesse contexto aparece espontaneamente a figura ímpar de São Francisco de Assis (1181-1226), sublime exemplo “do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado pela sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenho na sociedade e a paz interior” [10].
Hoje a humanidade é fortemente questionada a respeito do estilo de vida que muitos de nossos contemporâneos adotaram, caracterizado por crescente produção e consumo de bens materiais [59]. Para não poucos “a vida passa a ser uma rendição às circunstâncias condicionadas pela técnica, entendida como o recurso principal para interpretar a existência. Na realidade concreta que nos interpela, aparecem vários sintomas que mostram o erro, tais como a degradação ambiental, a ansiedade, a perda do sentido da vida e da convivência social” [110].
Urge redescobrirmos os verdadeiros valores que sustentam a razão de ser da nossa vida. Precisamos de grandes metas e de uma compreensão humanista, rica de significado, “capazes de conferir a cada sociedade uma orientação nobre e generosa” [181]. Sem isso, corremos o risco de viver numa “fugacidade que nos arrasta à superfície de uma única direção” [113], condicionada por conquistas técnicas, ilimitado consumo e crescente posse de bens materiais.
“Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação, refletir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre nós e naquilo que nos rodeia e cuja presença não precisa de ser criada, mas descoberta, desvendada” [225]. A ‘conversão interior’, como elemento indispensável de uma ecologia integral, “comporta várias atitudes que se conjugam para ativar um cuidado generoso e cheio de ternura. Em primeiro lugar, implica gratidão e gratuidade, ou seja, um reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai, que consequentemente provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos generosos, mesmo que ninguém os veja nem agradeça” [220]. Os frutos dessa ‘novidade de vida’ manifestar-se-ão numa equilibrada maneira de viver “aliada com a capacidade de admiração, que leva à profundidade da existência. A Natureza está cheia de palavras de amor; mas, como poderemos ouvi-las no meio do ruído constante, da distração permanente e ansiosa, ou do culto da notoriedade? Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm ao seu redor. Isto tem incidência no modo como se trata o ambiente [225].

4. ESTRATÉGIAS, EDUCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE ECOLÓGICAS
“Depois de um tempo de confiança irracional no progresso e nas capacidades humanas, uma parte da sociedade está entrando numa etapa de maior conscientização. Nota-se uma crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da Natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupação pelo que está acontecendo com nosso planeta” [19].
Como as futuras gerações julgarão nossa relação com o meio ambiente? Não é ilusório que nossa tempo será lembrado “como um dos mais irresponsáveis da história” [165], no que diz respeito à preservação do planeta. Para reverter o quadro de uma iminente catástrofe ambiental em larga escala, a política não pode continuar a ser simplesmente submetida à economia e esta não deve curvar-se aos ditames e paradigmas eficientistas da tecnocracia. “Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, coloquem-se decididamente a serviço da vida, especialmente da vida humana” [189].
Infelizmente, vemos fracassar muitos esforços para encontrar soluções viáveis para a grave crise ambiental que estamos atravessando. E isso “não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas. Precisamos de nova solidariedade universal” [14].
Surgem muitos questionamentos sobre a possibilidade de uma ‘economia sustentável’. A experiência ensina que “um desenvolvimento tecnológico e econômico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso. Além disso, muitas vezes a qualidade real de vida das pessoas diminui – pela deterioração do ambiente, a baixa qualidade dos produtos alimentares ou o esgotamento de alguns recursos – no contexto de um crescimento da economia. Então, muitas vezes, o discurso do crescimento sustentável torna-se um diversivo e um meio de justificação que absorve valores do discurso ecologista dentro da lógica da finança e da tecnocracia, e a responsabilidade social e ambiental das empresas reduz-se, na maior parte dos casos, a uma série de ações de publicidade e imagem” [194]. Torna-se notável que “o ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está acontecendo periodicamente em várias regiões. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio atual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências” [161].
Devemos criar, sem demora, um sistema normativo que ponha limites invioláveis à descontrolada exploração dos recursos naturais, protegendo, com rigor, os diversos ecossistemas [53]. Aqui emerge também uma questão de justiça para com aqueles que virão depois de nós. “Se a terra nos é dada, não podemos pensar apenas a partir de um critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual” [159].
Como vimos, ecologia tem tudo a ver com posturas éticas. “Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores. Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam alcançar efeitos importantes. Mas, se esta pergunta é posta com coragem, leva-nos inexoravelmente a outras questões muito diretas: Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Por isso, já não basta dizer que devemos preocupar-nos com as gerações futuras; exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo. Somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto chama em causa o significado da nossa passagem por esta terra” [160].
Muitas estratégias em prol da preservação da Natureza esbarram em forte resistência por parte de poderosos grupos econômicos. “Será realista esperar que quem está obcecado com a maximização dos lucros se detenha a considerar os efeitos ambientais que deixará às próximas gerações? Dentro do esquema do ganho não há lugar para pensar nos ritmos da natureza, nos seus tempos de degradação e regeneração, e na complexidade dos ecossistemas que podem ser gravemente alterados pela intervenção humana. Além disso, quando se fala de biodiversidade, no máximo pensa-se nela como um reservatório de recursos econômicos que poderia ser explorado, mas não se considera seriamente o valor real das coisas, o seu significado para as pessoas e as culturas, os interesses e as necessidades dos pobres” [190]. Temos que aprender a lidar com iniciativas de grandes empreendimentos que atingem diretamente o meio ambiente. Na discussão sobre ‘projetos de exploração’ devem ser levantadas perguntas pertinentes “para poder discernir se os mesmos levarão a um desenvolvimento verdadeiramente integral: Para que fim? Por qual motivo? Onde? Quando? De que maneira? A quem ajuda? Quais são os riscos? A que preço? Quem paga as despesas e como o fará? Neste exame, há questões que devem ter prioridade. Por exemplo, sabemos que a água é um recurso escasso e indispensável, sendo um direito fundamental que condiciona o exercício de outros direitos humanos. Isto está, sem dúvida, acima de toda a análise de impacto ambiental de uma região” [185]. No debate sobre esses empreendimentos de grande porte (por exemplo ‘planos de expansão’ das mineradoras) “devem ter um lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as finalidades que transcendem o interesse econômico imediato. É preciso abandonar a ideia de ‘intervenções’ sobre o meio ambiente, para dar lugar a políticas pensadas e debatidas por todas as partes interessadas. A participação requer que todos sejam adequadamente informados sobre os vários aspectos e os diferentes riscos e possibilidades, e não se reduza à decisão inicial sobre um projeto, mas implique também ações de controle ou monitoramento constante. É necessário haver sinceridade e verdade nas discussões científicas e políticas, sem se limitar a considerar o que é permitido ou não pela legislação” [183].
De indiscutível importância é a educação ambiental. “Se, no começo, estava muito centrada na informação científica e na conscientização e prevenção dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma crítica dos ‘mitos’ da modernidade baseados na razão instrumental (individualismo, progresso ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras) e tende também a recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. A educação ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo” [210]. Uma correta ‘educação ecológica’ pode contribuir significativamente para uma verdadeira ‘cultura ambiental’. É fato conhecido que, quando “a cultura se corrompe, deixando de reconhecer qualquer verdade objetiva ou quaisquer princípios universalmente válidos, as leis só se poderão entender como imposições arbitrárias e obstáculos a evitar” [123]. Sim, “a existência de leis e normas não é suficiente, a longo prazo, para limitar os maus comportamentos, mesmo que haja um válido controle. Para a norma jurídica produzir efeitos importantes e duradouros, é preciso que a maior parte dos membros da sociedade a tenha acolhido, com base em motivações adequadas, e reaja com uma transformação pessoal. A doação de si mesmo num compromisso ecológico só é possível a partir do cultivo de virtudes sólidas” [211].
Via de regra, nós não fomos educados para o reto uso do poder, pelo fato de “o imenso crescimento tecnológico” não ter sido acompanhado “por um desenvolvimento do ser humano quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência” [105]. Uma autêntica educação ambiental deve prestar atenção à beleza da Criação e ajudar o educando a sair do pragmatismo utilitarista. “Quando não se aprende a parar, a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso sem escrúpulos. Ao mesmo tempo, se se quer conseguir mudanças profundas, é preciso ter presente que os modelos de pensamento influem realmente nos comportamentos. A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a Natureza. Caso contrário, continuará a perdurar o modelo consumista, transmitido pelos meios de comunicação social e através dos mecanismos eficazes do mercado” [215].
Na formação ecológica não vale tanto “uma mera acumulação de dados que, numa espécie de poluição mental, acabam por saturar e confundir” [47], mas “pequenas ações diárias” que visibilizam um real cuidado com o meio ambiente [211], proporcionando um novo ‘estilo de vida’. “E não se pense que esses esforços são incapazes de mudar o mundo. Estas ações espalham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para além do que é possível constatar; provocam, no seio desta terra, um bem que sempre tende a difundir-se, por vezes invisivelmente. Além disso, o exercício destes comportamentos restitui-nos o sentimento da nossa dignidade, leva-nos a uma maior profundidade existencial, permite-nos experimentar que vale a pena a nossa passagem por este mundo” [212].
Na perspectiva cristã é a mística que sustenta um duradouro engajamento ecológico. Não é possível empenhar-se em grandes causas apenas com doutrinas “sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária. Temos de reconhecer que nós, cristãos, nem sempre recolhemos e fizemos frutificar as riquezas dadas por Deus à Igreja, nas quais a espiritualidade não está desligada do próprio corpo nem da Natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos rodeia” [216].
O cristão vê a magnífica obra da Criação como fruto de uma ação divina. “O Pai é a fonte última de tudo, fundamento amoroso e comunicativo de tudo o que existe. O Filho, que O reflete e por Quem tudo foi criado, uniu-se a esta terra, quando foi formado no seio de Maria. O Espírito, vínculo infinito de amor, está intimamente presente no coração do Universo, animando e suscitando novos caminhos. O mundo foi criado pelas três Pessoas como um único princípio divino, mas cada uma delas realiza esta obra comum segundo a própria identidade pessoal. Por isso, quando, admirados, contemplamos o universo na sua grandeza e beleza, devemos louvar a inteira Trindade” [238]. Por sua vez, “as criaturas tendem para Deus; e é próprio de cada ser vivo tender, por sua vez, para outra realidade, de modo que, no seio do universo, podemos encontrar uma série inumerável de relações constantes que secretamente se entrelaçam. Isto convida-nos não só a admirar os múltiplos vínculos que existem entre as criaturas, mas leva-nos também a descobrir uma chave da nossa própria realização. Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a sua criação. Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade” [240]. Maravilhoso é saber que tudo que a bondade de Deus trouxe à vida um dia participará da eternidade feliz. Com efeito, “juntamente com todas as criaturas, caminhamos nesta terra à procura de Deus, porque, ‘se o mundo tem um princípio e foi criado, procura quem o criou, procura quem lhe deu início, aquele que é o seu Criador’ (São Basílio Magno). Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança” [244].
Uma espiritualidade ecológica “propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar para saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres” [222]. Mas, “não é fácil desenvolver esta humildade sadia e uma sobriedade feliz, se nos tornamos autônomos, se excluímos Deus da nossa vida fazendo o nosso eu ocupar o seu lugar, se pensamos ser a nossa subjetividade que determina o que é bem e o que é mal” [224].
Por fim, “se nos aproximarmos da Natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, então as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos. Pelo contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude” (11].

[Releitura em forma de síntese da Encíclica Laudato Si’,
com o objetivo de captar as ideias centrais do documento pontifício,
feita por frater Henrique Cristiano José Matos, cmm, setembro de 2015]