Data : 02/11/2015

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7º Reflexão:

Uma “terra estressada” que reage às agressões

7reflexao

A Terra está perdendo seu equilíbrio e entrou num processo de estresse generalizado. Por toda parte os sinais dessa situação são perceptíveis: aquecimento global, diminuição preocupante da biodiversidade, grandes secas, crise hídrica, inundações, ciclones e tufões. O sistema capitalista e os seres humanos que o movimentam são os grandes culpados de tudo isso. Nossa relação com a Terra — Mãe comum de toda a vida — é de ordem quase exclusivamente utilitária. Tratamo-la com crueldade, arrancando dela tudo que julgamos de imediato proveito, numa visão radicalmente antropocêntrica, como se nós fôssemos os únicos donos da Terra. Levamos a exploração da Natureza até os últimos limites e, na realidade, os ultrapassamos. Temos adotado o sistema econômico de crescente consumismo, que desrespeita o ciclo natural de regeneração do meio ambiente. À Terra simplesmente não é concedido o tempo suficiente para recompor suas perdas e refazer-se de suas permanentes agressões. Como já vimos anteriormente, essa visão inteiramente centrada nos imediatos interesses humanos deixa, egoisticamente, de lado os direitos inalienáveis de outras presenças de vida e, no fundo, se torna catastrófica para a própria sobrevivência dos humanos.

A Terra está enviando sinais inequívocos de seu desequilíbrio, causado, em primeiro lugar, pelo modelo econômico capitalista neoliberal e consequente aquecimento global, efeito de emissão exagerada de gases, principalmente de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. O resultado sentido são as mudanças climáticas: aumento das temperaturas do ar e das águas dos mares, derretimento da neve e dos gelos, elevação do nível das águas dos oceanos. O desmatamento de florestas e matas ciliares, além das queimadas — praticadas em larga escala no nosso país — contribuem para o preocupante “efeito estufa”. Assim, por exemplo, o desmatamento em torno de Belo Horizonte, e não pequena parte o resultado da ação das mineradoras, está afetando diretamente o clima na cidade, além de colocar em risco o abastecimento de água. A capital mineira, antes conhecida pelas suas temperaturas amenas, sendo, inclusive, um lugar ideal para o tratamento de tuberculose, tornou-se uma metrópole problemática devida às bruscas mudanças de temperatura e à disponibilidade de água potável. As futuras gerações farão amargas críticas às atuais autoridades públicas que sancionaram os megaprojetos de exploração da Natureza com a consequente degradação do meio ambiente. E tudo isso em nome de um falso “progresso econômico” que, no fundo, prejudica gravemente e de forma irreversível a qualidade de vida dos belo-horizontinos!

Alarmante é a diminuição da disponibilidade de água doce. É bem provável que vire um produto de alto valor comercial, privatizado e vendido por grandes empresas que a comercializarão. Água é um bem comum por excelência e indispensável para a vida de todos nós. Sua privatização seria um desastre sem proporções , ameaçando, em primeiro lugar, a sobrevivência dos mais fracos e pobres dos seres vivos.

Muitas regiões já experimentam um processo de desertificação e, consequentemente, de perda radical de sua produtividade. As modificações genéticas das sementes, o uso inadequado de fertilizantes e o emprego indiscriminado de agrotóxicos, colocam sérios questionamentos para a saúde nossa e do próprio Planeta.

A Terra, sistematicamente explorada e agredida, já perdeu sua capacidade de autorregulação e se encaminha para uma desagregação, com efeitos desastrosos para seus habitantes. Nossa Terra geme e se contorce nos tormentos, nas tsunamis, nos ciclones, nas enchentes e nas grandes secas (como no Nordeste brasileiro). Na realidade, os seres humanos declararam uma “guerra coletiva” contra Gaia, sua própria Mãe, explorando e sugando, com violência, todos os seus recursos. De fato, atacamos a Terra em todas as frentes: nos solos, nos subsolos, nos ares, nas florestas, nas águas, nos oceanos, no espaço exterior. Passou a hora de mostrarmos verdadeira “compaixão” para com nossa Magna Mater, pensar-lhe as feridas e cuidar de sua saúde abalada.

Constatamos que as agressões praticadas, voltam-se contra nós mesmos, como bumerangues ecológicos. Adotamos — às vezes sem ter plena consciência disso — o “princípio de autodestruição”, sem medir adequadamente suas funestas consequências. Enorme é nossa responsabilidade nesse momento decisivo da História. Mais uma vez lembramos que o modelo de “desenvolvimento” em vigor criou uma sociedade “insustentável”. O “progresso” econômico, fundado no lucro a qualquer custo, atrelado à lógica de aumento contínuo da produção, não leva em consideração normas éticas convincentes e provoca uma destruição do meio ambiente sem igual na História. Esse sistema não tem futuro. Transformou tudo em “mercadoria”, objeto de compra e venda. Seu critério derradeiro é produzir para consumir e, assim, “gerar riquezas”, que podem ser mediadas pelo PIB (Produto Interno Bruto).

“Vai ficando cada vez mais claro que a economia de mercado regulada pelo capital não tem futuro, porque seu motor — o lucro privado — destrói os recursos naturais, ao tratá-los como mercadorias em vez de usá-los com a parcimônia que se deve ter com um patrimônio da humanidade. Enquanto ela espera um milagre a ser produzida pela ciência e a tecnologia, segue em frente depredando o que resta do planeta, como o habitante das cidades grandes brasileiras, que, diante da lentidão do trânsito, compra um automóvel para resolver seu problema de locomoção…” (Pedro A. Ribeiro de Oliveira).

Caso continuarmos com os atuais critérios de “bem estar”, baseados na irracional exploração da Terra, precisaríamos pelo menos de três terras iguais à atual, pois é um fato que a humanidade, nesse momento de sua história, consome 30% mais do que a Terra pode repor!

Logicamente não somos tão ingênuos a ponto de condenar qualquer intervenção humana na Natureza. Isso sempre aconteceu desde as origens da humanidade. A questão é como se realiza essa intervenção, ou seja, quais medidas são adotadas para garantir, ao mesmo tempo, a justa satisfação das nossas necessidades e a harmonia da Natureza no sentido da sua recuperação. Exatamente esse equilíbrio é que está sendo fortemente perturbado em nossos dias com efeitos nada risonhos para os seres vivos que habitam o planeta.

“A extinção de espécies da fauna e da flora, causada em sua maior parte por nós próprios, destrói, um por um, os fios da teia da Vida. Vida que somos incapazes de recriar. Um ser extinto é um ser que desaparece para sempre e, quando isso acontece, a vida se empobrece um pouco mais e a teia enfraquece, comprometendo não só as atuais gerações que habitam o planeta, mas também as futuras” (Vilmar Berna).

Encontramo-nos diante de uma escolha irrefutável: ou fazer a aliança de convivência e de mútuo respeito, ou correr o risco de sermos eliminados da Terra, nosso Lar, nossa Nutriz.

Os sintomas de “estresse” que a Terra hoje nos revela deveriam ser para nós um sério alerta e levar a mudanças radicais. Não é supérfluo lembrar que a Terra pode viver sem nós e, talvez, até melhor; nós, porém, seremos incapazes de viver sem a Terra!

Sim, precisamos passar de um modelo de sociedade consumista e individualista, que sacrifica os ecossistemas, penaliza as pessoas e destrói a sociobiodiversidade, para uma sociedade de sustentação de toda a cadeia da vida.

frater Henrique Cristiano José Matos, cmm

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