Data : 02/10/2015

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6º Reflexão:

Ecologia profunda: o mistério da vida.

sexta

As mineradoras, em seus projetos de expansão, raramente falam daquilo que constitui o cerne de toda questão ecológica: o mistério da vida diretamente relacionada com o próprio Autor da Vida: Deus.
A ecologia profunda remete-nos à origem de tudo que existe e que faz parte da imensa ‘comunidade terrenal’. Em reflexões anteriores, vimos que cada ser possui um valor intrínseco dentro de uma gigantesca teia de relações que envolve tudo e todos. Neste conjunto orgânico de vida, o ser humano é dotado de capacidade para identificar o fio condutor que liga tudo à sua Fonte Originária. Tocamos aqui valores que sustentam a convivência na Terra, valores ancorados em dimensões que ultrapassam infinitamente o imediato e abrem perspectivas de vida plena. Em última instância nos remetem ao Sagrado e ao Transcendente, realidades que emergem espontaneamente no mais íntimo da consciência humana.
Uma postura predominantemente racional e utilitarista, caracterizada por ‘tirar proveito de tudo e a todo custo’, fere profundamente nossa humanidade. No fundo, a existência sempre significa coexistência, onde afeto, emoção, sensibilidade, cuidado e, sobretudo, amor, são determinantes. Perder essas referências é perder, lenta mas definitivamente, o sentido último da nossa própria vida! Para sermos verdadeiramente felizes e realizados como seres humanos, devemos, sem demora, resgatar ‘os direitos do coração’ e ver ‘o lado poético’ da existência.
Há, em cada um de nós, virtualidades que, uma vez ativadas, podem proporcionar um ‘reencanto’ de nossa vida. Falamos de ‘uma maneira de ser’ que não se esgota em ‘ganhar dinheiro’, ‘possuir o maior número possível de bens’, ‘ser dominado pelo consumo’ ou ‘escravizado por prazeres passageiros’. Trata-se, efetivamente, de um outro way of life que faz com que habitemos poeticamente o mundo “ao articular a máquina com a poesia, o trabalho rotineiro com a criatividade, o interesse com a gratuidade, a objetividade nos conhecimentos com a subjetividade emocional, o pão penosamente ganho com a beleza fascinante das relações calorosas”.

Na direção aqui apontada, abre-se o horizonte do grande Mistério que tudo penetra e sustenta: Deus, sentido cabal da existência, porque presença amorosa que tudo envolve na gratuidade de uma vida plena que permanece. Referimo-nos à dimensão espiritual da nossa vida que nos faz perceber as mensagens que a Natureza nos envia, captar o elo secreto que une todos os seres, fazendo que o Universo seja um ‘cosmos’ e não um ‘caos’. Concretamente colocamo-nos sob a ação do Espírito e, assim, na abertura de uma existência transcendente. Mergulhamos naquela Energia suprema que anima todo o Universo e dinamiza, por dentro, todas as manifestações de vida do Planeta.

Na tradição judaico-cristã, a vida encontra na Criação e na Redenção seus momentos culminantes.

A Criação é vista como uma ‘externação’ ou ‘reflexo’ daquilo que Deus é na sua mais íntima essência: amor. Um amor pleno, não fechado em si, mas que faz suas criaturas dele participarem em abundância. Assim, todo o cosmos apresenta-se como uma espécie de transbordamento de uma plenitude de ser, de bondade, de beleza e de inteligência. Não somos capazes de verbalizar adequadamente essa suprema realidade, apenas podemos experimentar algo de seu inefável mistério. O livro bíblico de Gênesis retrata poeticamente dessa experiência fontal quando o autor sagrado repete” “E Deus viu que tudo era bom”. A narrativa da Criação mostra, em imagens, que cada ser é valorizado e dignificado pelo Criador (cf. Gn 1,1-31). Todos os seres têm sua origem no amor criador de Deus, trazendo em si as marcas de uma presença divina. Juntos constituem a grandiosa Comunidade de Vida, composta de uma complexíssima rede de relações, onde tudo é dinâmico, tudo vibra, tudo está em vias de crescimento e de amadurecimento. De fato, desenrola-se diante de nós uma totalidade orgânica, carregada de significados e valores sem medida.

No interior do processo evolutivo — que abrange, efetivamente, todos os seres, inclusive o humano — Deus se manifesta como animação, atração, convergência para o alto e para frente. Atrai a Si todas as energias e todas as formas de matéria, a fim de que cheguem a seu pleno desenvolvimento e realização.
A Redenção, realizada em Cristo Jesus, o Filho de Deus feito homem — mistério central do cristianismo — não deve ser considerada a ‘substituição’, mas, sim, o ‘resgate’ da Criação, orientando a seta do tempo e sanando a chaga da vida que sangrava. A salvação, anunciada e instaurada por Cristo, refere-se à vida que deveria ser restaurada em sua plenitude com perspectivas de eternidade. “Afinal, não é da lógica do Criador destruir o que criou, mas elevar, transformar, plenificar. Não faz sentido com a natureza do próprio Criador que Ele destrua a matéria, o Universo, os vegetais e animais que Ele criou e viu que ‘tudo era muito bom’. A revelação bíblica indica esse caminho de transfiguração, de eternização de toda a matéria, animada e inanimada” (CNBB: Profecia da Terra).
Com a Encarnação do Filho de Deus — base de toda a fé cristã — tudo passa a ser ‘divinizado’, pois tudo foi ‘assumido’ por Deus. Assim, é confirmada a ‘sacralidade’ da vida saída das mãos do Criador, incluindo, como é lógico, a Natureza no seu todo, com sua riquíssima variedade de flora e fauna, matas e águas.

A reflexão sobre a dimensão espiritual da ecologia, ou seja, a ecologia profunda, ganha relevância em textos bíblicos que se referem diretamente à Natureza. Sem sermos exaustivos apresentamos os seguintes trechos escriturísticos:
Livro do Gênesis. O primeiro capítulo conta, em forma de poema, a grandiosa obra da Criação. Chama nossa atenção que, junto com os vegetais e os animais viventes, os homens são apresentados como seres ‘saídos da terra’: humanos feitos de húmus!
Durante muito tempo a ordem divina: ‘submeter’ e ‘dominar’ foi interpretada, erroneamente, como se o ser humano tivesse um domínio absoluto sobre os outros seres, considerados ‘inferiores’ a ele. Hoje nos convencemos de que o texto deve ser entendido no sentido de um convite de Deus para ‘administrar’ sua obra e ‘cuidar’ dela responsavelmente. Assim, o homem tem a nobre vocação de ‘cultivar’ e ‘guardar’ a Terra, mantendo-a em suas bases de sustentação e no seu próprio ciclo de vida. Assim, não é ‘dono’, mas ‘cuidador’ da Natureza, alguém que deve prestar contas ao Criador de sua gestão.
Salmo 104(103). Oferece um belíssimo ‘Hino de Louvor à Natureza’. O auge está na afirmação que Deus é o Doador e Mantenedor da vida. O seu ‘ruah’ (espírito/sopro) constitui o princípio vital do Cosmos (versículo 30). Todo o Salmo canta o ‘esplendor da Criação’, seguindo nisso a mesma ordem do primeiro capítulo do livro de Gênesis.
Cântico de Daniel. Tece um grandioso elogio das criaturas todas ao Senhor da Vida. De notável atualidade são os versículos 75 a 78, do capítulo 3 do Livro de Daniel: “Montes e colinas, bendizei o Senhor! Plantas da terra, bendizei o Senhor! Mares e rios, bendizei o Senhor! Fontes e nascentes, bendizei o Senhor!”

  • Lucas 12, 22-31. Numa perspectiva ‘ecológica’ este texto nos conscientiza de que Deus cuida paternalmente de toda sua criação, privilegiando os seres mais fracos e ameaçados.
  • Romanos 8, 18-25. São Paulo mostra que a obra redentora de Cristo ultrapassa o ser humano e se estende à criação inteira que ainda ‘geme em dores de parto’ e ‘anseia pela redenção’. Sim, podemos esperar por um Universo plenamente redimido, incluindo a Natureza na sua totalidade. Haverá um planeta Terra renovado, onde experimentaremos uma convivência fraterna e pacífica, tal como profetizou Isaías (11,6-8; 65,25).
  • 1Coríntios 12,12-26. Nessa perícope o Apóstolo dos Gentios descreve uma sociedade de relações recíprocas caracterizadas pela solidariedade. Numa interpretação ecológica refere-se a todos os seres que compõem a comunidade terrenal, privilegiando aqueles que são marginalizados ou considerados ‘menos dignos’ ou até ‘inferiores’.
    Em tempos recentes surgiu na comunidade cristã um modo de se viver o Evangelho dando ênfase à dimensão ecológica. Sem dúvida, trata-se de uma corrente espiritual em perfeita sintonia com profundas aspirações da cultura hodierna. Sem exagero podemos falar de uma ‘nova espiritualidade’. Toda verdadeira espiritualidade diz diretamente respeito à vida, mas a espiritualidade ecológica assume um cuidado especial para com a vida no planeta. Diante de uma crescente degradação da Mãe Terra (Gaia), causando grande sofrimento a tantos seres vivos, essa corrente espiritual cultiva particularmente a ‘compaixão’, estilo de vida diretamente inspirado no Jesus histórico. Seus seguidores são convidados para serem ‘anjos da criação’ e autênticos ‘profetas da vida’, que rejeitam decididamente todo tipo de conivência com sistemas econômicos que devastam impiedosamente a Terra, movidos unicamente por lucros estrondosos, sem mostrar nenhuma preocupação com o futuro do planeta. A espiritualidade ecológica nada tem a ver com ‘espiritismos’, formas degeneradas de espiritualidade pelo fato de provocarem alienação, refugiando-se numa religião meramente interesseira.A espiritualidade ecológica, com certeza, vai incomodar, e muito, o mercado do capital, dominado por trustes e grupos econômicos fortes — quase sempre apoiados por instâncias governamentais que se preocupam unicamente pelo PIB, e, logicamente, pelo índice de aprovação da população — pois questiona, a partir de dentro, todo o sistema econômico vigente. Esconde no seu bojo um grito profético: “Podemos estar próximos de uma hecatombe sem precedentes na história humana: a destruição do nosso Planeta com o desaparecimento de numerosas formas de vida — realidade já perceptível em várias partes da Terra — provocada, entre outras, pela crescente escassez de água potável.
    A espiritualidade que privilegia a ecologia desenvolve, sistematicamente, um amor de ternura para com nossa Mãe-Terra, partindo da convicção de que uma tecnociência sem sensibilidade e compaixão — especialmente aquela ligada à atividade de mineração e desmatamento — leva, inevitavelmente, a um incalculável ecocídio (‘morte da Natureza’, provocada pela ação humana) com consequências catastróficas para o futuro próximo do planeta.

    Pelo fato de não se ter dado “lugar ao afeto e ao coração não havia motivo para respeitar a Natureza e escutar as mensagens que ela sempre nos envia. Como se supunha que não era portadora de espírito, podia ser tratada como um simples objeto a ser explorado impiedosamente” (Leonardo Boff: Ética e espiritualidade planetária).
    Numa espiritualidade ecológica, Deus e a Natureza se fazem mutuamente transparentes, pois Deus está em tudo e tudo está em Deus. De fato, o Criador aponta em cada ser, acena em cada relação, irrompe em cada ecossistema. Nessa realidade, o ser humano toma melhor consciência de não ser ‘dono’ da Terra, mas apenas seu ‘inquilino’!
    Um cristão, seriamente empenhado na ecologia, promove uma ‘mística de confraternização universal’, tal como foi cultivada pelo grande santo medieval, Francisco de Assis (1181-1226). Vive a ternura como atitude básica no encontro com as alteridades presentes na Natureza, respeitando-as e reconhecendo seus valores específicos. E isso simplesmente pelo fato de elas existirem como reflexo inconfundível da Fonte originária de toda vida e beleza: Deus.

    Muito significativo é o que o primeiro biógrafo de Francisco, Tomás de Celano (+1229), escreveu sobre o Poverello de Assis: “Ele andava com respeito sobre as pedras em atenção àquele, Cristo, que foi chamado de ‘pedra’. Recolhia, com carinho, as lesmas para não serem pisadas. No inverno, dava água doce às abelhas para não morrerem de frio e de fome“.

    Pessoas, diretamente ligadas às grandes Empresas de Mineração, lendo o texto aqui apresentado, provavelmente reagirão da seguinte maneira: O que gente de Igreja entende da atividade mineradora? Por que um teólogo ou religioso se mete em assuntos que não são de sua competência? Como podem desconhecer ‘os benefícios’ que a mineração traz para uma região: emprego, melhoria da vida dos moradores, asfalto e investimentos sociais? A própria MMX, na divulgação de seu gigantesco “Projeto de Expansão Serra Azul”, em São Joaquim de Bicas, MG, enumera minuciosamente ‘as vantagens’ que sua chegada iria trazer para a população local. Lemos numa última publicação (dezembro 2012/janeiro2013): “A MMX acredita que seus empreendimentos contribuem significativamente para o bem-estar da comunidade, geração de empregos e desenvolvimento econômico. Com estes objetivos, a empresa desenvolve iniciativas relacionadas à educação, priorizando a formação de mão de obra local, fornecedores da região, empreendedorismo social, educação ambiental (sic) e patrimonial, bem como a valorização da cultura e lazer”. Com toda seriedade podemos perguntar-nos: o que, na realidade, significam essas belas palavras diante da perda irrecuperável de imensas áreas da Natureza, da vegetação, das matas nativas e, antes de tudo, das nascentes de água que havia em abundância na região? Temos a convicção de que tocando a Natureza, tocamos diretamente o Criador, honrando e glorificando-O ou ofendendo e desprezando-O.
    Sim, ecologia possui um conteúdo eminentemente religioso, queiramos ou não. Trata-se de uma questão intimamente associada à Vida e toda Vida relaciona-se irrevogavelmente com o Autor da Vida: Deus. Aqui entra também a Teologia como theos+logia: ‘uma palavra sobre Deus’. Podemos defini-la como “uma fé lúcida e crítica, sendo Deus seu objeto primeiro, um Deus que se revela e se faz conhecer na História. Assim, a teologia inclui um encontro entre Deus que vem a nós [também, e, talvez, privilegiadamente, na Natureza] e o ser humano que se abre à sua manifestação.

    “O diálogo da teologia com a ecologia se dá, simultaneamente, em vários âmbitos. Acontece, inicialmente, um ‘diálogo interno’, quando o teólogo ou a teóloga se engaja nas causas socioambientais, exercita o encantamento diante das belezas e do mistério da Criação, fica indignado com a destruição dos ecossistemas, deixa-se tocar pelo testemunho de pessoas comprometidas com a sustentabilidade, desenvolve uma mística ecológica, conhece práticas socioambientais originais, e adentra no conhecimento da ecologia enquanto saber, paradigma e ética. Tudo isso traz perguntas e oportunidades para ampliar sua visão e fecundar a fé cristã” (Afonso Murad).
    Uma religião digna deste nome, ajuda a ciência e a técnica a serem éticas e estarem a serviço da vida, e não só voltadas ao mercado. Nesse sentido se apresenta como uma verdadeira ‘pedagoga de humanismo’.

    Autêntica vivência religiosa — destacando-se uma vida pautada no Evangelho de Jesus Cristo — ajuda o ser humano a sair da jaula em que foi metida pelo capitalismo com sua mentalidade de ‘ganho’ e ‘consumo’, para, finalmente, encontrar o caminho que pode saciar os mais profundos anseios de seu coração. Livre da escravização do mercado, pode, então, abrir-se a uma espiritualidade capaz de plenificá-lo por dentro. “Espiritualidade, nessa acepção, é toda atividade e comportamento humano que encontram sua centralidade na vida (não na vontade de poder, nem na acumulação, nem no desfrute fugaz do prazer), na promoção e na dignificação de tudo que estiver ligado à vida” (Leonardo Boff, op.cit.).
    Abrir os olhos a esse fascinante itinerário que dá acesso ao derradeiro sentido existencial, é papel próprio da religião e função específica de seus líderes, quaisquer que sejam.

    Certo dia alguém perguntou ao Dalai Lama [líder religioso do budismo tibetano e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, em 1989]: “Qual é a melhor religião?” Com um sorriso, entre sábio e malicioso, ele respondeu: “É aquela que te faz melhor”. O interlocutor reagiu imediatamente com a seguinte pergunta: “O que é fazer-me melhor?” E o Dalai Lama retorquiu, sem hesitação: “Fazer com que seja mais compassivo, mais humano e mais aberto ao Todo. Aqui também está a melhor religião!”

    frater Henrique Cristiano José Matos, cmm 

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