Data : 04/08/2015

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4ª Reflexão

Ecologia e desenvolvimento sustentável: uma contradição.

4reflexao

No informativo, distribuído por ocasião da Audiência Pública, no Ginásio Poliesportivo do Bairro Nossa Senhora da Paz (Farofa), Município de São Joaquim de Bicas, na terça-feira, dia 22 de março de 2011, lemos na página que traz como cabeçalho os dizeres “Um projeto grandioso, moderno e com alta tecnologia”, o seguinte: “O Projeto de Expansão Serra Azul é motivo de orgulho para todos aqueles que trabalham na MMX e, com certeza, o será também para a população de São Joaquim de Bicas e região. A utilização da mais moderna tecnologia também busca a realização de um projeto absolutamente sustentável, com respeito ao meio ambiente (água, flora e fauna) e aos costumes sociais e culturais de São Joaquim de Bicas e região”. Não deixa de ser um apetitoso prato temperado com sofisma. A expressão “desenvolvimento sustentável” — empregada em larga escala pelos poderes públicos, empresas e pela mídia — merece uma análise mais detalhada, objeto específico do texto aqui apresentado .

A Natureza — como temos visto em contribuições anteriores — constitui uma imensa comunidade ecológica, onde tudo convive com tudo, numa gigantesca rede de dependências e interrelações. Nesse sentido é correto falar de um autêntico holismo, pois se trata de uma “totalidade integrada”, onde o todo está nas partes e as partes no todo. Não é uma realidade estática mas, pelo contrário, uma realidade radicalmente dinâmica, um verdadeiro holomovimento, articulado em todas as direções e envolvendo todos os seres. Em outras palavras: uma solidariedade vital une entre si todos os componentes da Terra e, por extensão, do Universo inteiro. Efetivamente, fatos do passado afetam o presente, enquanto atos de hoje condicionam o futuro, pois existe uma interdependência orgânica de tudo com tudo!

O vocábulo ecologia refere-se, originalmente, ao estudo ou discurso racional (logos) sobre a casa-Terra (oikos), indicando os ecossistemas, isto é, as interrelações entre os seres abióticos (solo, ar, água, energia) e os seres vivos (microorganismos, vegetais, animais e seres humanos de determinada área ou bioma). A ecologia ocupa-se com o meio ambiente, estudando as relações existentes na Natureza, partindo da convicção de que tudo interage com tudo em todos os pontos e em todas as circunstâncias. Percebe-se que temos diante de nós uma questão absolutamente central, pois dela depende o futuro, não somente do ser humano, mas da própria vida no planeta!

O termo desenvolvimento tem um sentido específico no sistema econômico, hoje imperante. Refere-se a um permanente “crescimento” e, assim sendo, possui um significado produtivista. Faz referência ao mecanismo capitalista de “produzir sem limites”, a fim de gerar “riquezas” cada vez maiores. Em palavras mais sofisticadas pode-se dizer que cultiva uma visão econômica que “obedece à lógica férrea de maximalização dos benefícios, com a minimalização dos custos e o encurtamento maior do tempo empregado”. Os bens naturais da terra são explorados em grande escala, numa desenfreada produção de bens que, no fundo, beneficiam apenas uma ínfima parcela da sociedade.

O termo sustentabilidade é proveniente da biologia e da ecologia. Refere-se à capacidade que a Terra tem de se recompor das perdas sofridas pela exploração de seus bens naturais, mantendo, assim, um equilíbrio dinâmico, aberto, inclusive, a posteriores evoluções. Num gesto de respeito aos seus ciclos naturais, a corrente da sustentabilidade defende um consumo racional dos recursos não renováveis da terra, enquanto se dá tempo à Natureza de regenerar os renováveis. Aparece também a preocupação referente às gerações futuras que também têm direito aos bens da Terra para suprir suas necessidades. Vista nessa perspectiva, a sustentabilidade constitui “um conjunto de processos que visam garantir a continuidade da qualidade da vida para as novas gerações de seres humanos, animais, plantas e microorganismos” (Afonso Murad). Não temos aqui uma questão de ordem secundária, mas de interesse vital e decisivo para a continuidade da vida em todas as suas manifestações!

Entre desenvolvimento e sustentabilidade existe uma profunda contradição: um termo não combina com o outro! Alguns ecologistas falam abertamente de uma “armadilha”, montada pelo atual sistema econômico, diretamente associado ao capitalismo neoliberal. No fundo há uma incompatibilidade entre as duas realidades que representam duas lógicas mutuamente excludentes. Enquanto a lógica do “grande capital” pretende dominar a Natureza, arrancando dela tudo que pode ser transformado em “mercadoria”, com a utilização da tecnologia mais avançada, a ecologia defende um uso equilibrado dos bens naturais, respeitando a capacidade da Terra de recuperar-se, ou seja uma exploração “ecologicamente correta”. Tal atitude impõe uma série de restrições ao atual sistema econômico que se caracteriza pela sede insaciável de enriquecimento a curto prazo. Sua visão coletivamente egoísta e interesseira contribui, em grande parte, para a depredação do meio ambiente, com consequências catastróficas, cujos efeitos iniciais começamos a sentir na própria pele.

Dificilmente a lógica do mercado harmonizar-se-á com a lógica da ecologia. “O mercado pede que se consuma mais e mais e, em função disso, se produza mais e mais. A ecologia exige que se produza em consonância com os ciclos da Natureza, sem dilapidar o capital natural e distribuindo com equidade os benefícios, além de consumir com sentido de parcimônia e de solidariedade” (Leonardo Boff).
Por fim: “A ecologia é mais que técnica e gerenciamento racional e sustentável de escassos recursos da Natureza. Ela é, antes, arte e novo modo de relacionar-se com a Natureza e com a realidade total”.

frater Henrique Cristiano José Matos, cmm

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