Data : 10/07/2015

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3º Reflexão

3º Reflexão: A Terra como Comunidade de Vida

Muitas vezes faço, de carro, o percurso Belo Horizonte – São Joaquim de Bicas. À altura de Citrolândia, na BR-381, avisto a serra que está sendo explorada pela MMX: o “Projeto de expansão Serra Azul”. Vejo então uma enorme mancha indicando o desmatamento e o desaparecimento de toda a vegetação original. Quantas vezes, ao longo de muitos anos, andava naquelas matas, subindo e descendo a estrada de chão que liga o Distrito Nossa Senhora da Paz (Farofa) a Brumadinho, quase sempre acompanhado pela fiel cadela Vitória! A última vez foi no dia 11 de abril de 2012, quando então um fiscal da Mineração, na vizinhança da Estrada do Haras, impediu que seguisse meu costumeiro trajeto. Foi o término brusco de um extenso período em que pude familiarizar-me com aquelas terras de exuberante vegetação e de inúmeras nascentes. Agora somos “proibidos” de pisar aquelas áreas que foram “desapropriadas”. Tornaram-se “terras privatizadas” para serem exploradas pelo grande capital, sem direito a absolutamente nada: uma Natureza sacrificada, um ecocídio cujo único objetivo é o lucro imediato no mercado.

Espontaneamente surge aqui uma pergunta básica: quem é o “dono da terra”, a quem pertencem matas, rios, ares, mares, enfim, tudo que compõe uma Natureza viva? Por acaso, é o Estado ou Poder Público que, livremente, decide sobre esse patrimônio natural? Ou, talvez, algum rico latifundiário ou fazendeiro de gado? A pergunta fica martelando na minha cabeça: quem é, finalmente, o “proprietário” da Terra? A única resposta que me satisfez até agora — após ter procurado explicações por toda parte — é que a Terra, em última análise, pertence a Deus. A tradição judaico-cristã, expressa no Livro bíblico do Levítico (25,23), registra: “Minha é a Terra e tudo o que ela contém e vocês são meus hóspedes e inquilinos!” Na ‘Bíblia de Jerusalém’ encontramos a seguinte tradução: “A terra não será vendida perpetuamente, pois que a terra me pertence e vós sois para mim estrangeiros e residentes temporários” (Lv 25,23). A Sagrada Escritura, neste e em outros lugares, não deixa a menor dúvida: só Deus é Senhor da Terra e não passou ‘escritura de posse’ a ninguém! Nós, seres humanos, somos apenas hóspedes e inquilinos na condição de simples cuidadores com a missão de guardar a Terra segundo os desígnios de Deus: torná-la um magnífico Jardim do Éden. No fundo, a Terra pertence também — por vontade divina — a todos os seres vivos que a habitam, sim a todos: aos que já aqui viveram, aos que atualmente nela vivem e aos que ainda vão nascer nela.3reflexao

A Terra constitui, de fato, uma gigantesca Comunidade de Vida, composta por seres que dependem uns dos outros. Forma uma imensa rede solidária de seres que têm a mesma origem e um destino comum. Assim, a Terra — e, na realidade, todo o Cosmos, do qual faz parte — é um conjunto de sujeitos relacionados em todos os sentidos, formando um macro-organismo vivo, onde literalmente tudo está relacionado e nada pode existir fora da relação. Destarte, constatamos uma radical e profunda interdependência de todos os seres, humanos e não-humanos. Nesse contexto, ninguém pode viver isoladamente, pois seria sua morte imediata!

Na Comunidade solidária da Terra todos os seres têm direito inalienável à existência; merecem viver e conviver. Deve ser reconhecida a relativa autonomia de cada um dos seres e sua própria identidade. Numa perspectiva holística (do grego holos, isto é, a totalidade integrada) não há mais lugar para um ilusório e arrogante antropocentrismo (o ser humano como centro de tudo, podendo dominar arbitrariamente todos os outros seres). No conjunto da Natureza, o homem é dotado de conhecimento reflexo e, por isso, tem uma responsabilidade específica em relação aos demais seres. Tudo no Universo — esta imensa Comunidade cósmica — coexiste e se encontra em estado de mútua dependência. Assim, como não podemos separar as ondas entre si e as ondas do mar, ou não somos capazes de separar a luz de seu brilho e de sua irradiação, da mesma forma tudo no Universo apresenta-se relacionado e integrado!

Nós, seres humanos, não estamos apenas sobre a Terra, mas somos a própria Terra em sua expressão de consciência, liberdade e amor. Não esqueçamos que a palavra homo (homem), em latim, vem de humus, que significa “terra fecunda”.
Se conferirmos direitos fundamentais ao ser humano, por coerência intrínseca devemos conferi-los também à própria Terra da qual fazemos parte. Sim, a Terra que nos dá a vida e nos sustenta possui direitos irrecusáveis que são até mesmo anteriores aos do próprio ser humano.

Como vimos, a Terra constitui um superorganismo vivo que harmoniza, com sutileza e inteligência, todos os elementos necessários para a realização e conservação da vida. A mitologia grega a chama de “Grande Mãe”, a divindade Gaia, terra viva e fecunda, matriz generosa de esplêndida vitalidade. Para os Antigos seria uma inaceitável blasfêmia considerá-la como um conjunto de “recursos naturais” ou um “reservatório de matéria prima” que pode ser explorado até sua exaustão. A Terra, Mãe comum de todos os seres, possui uma identidade e autonomia pelo fato de ser um organismo vivo, extremamente dinâmico e complexo. É a Magna Mater (a Grande Mãe) que nos nutre e carrega, a generosa Pacha Mama, dos povos originários dos Andes, que a rendem culto com comovente reverência e respeito. Eles têm plena consciência de que dela recebem tudo de que precisam para viver. Por isso mesmo, reconhecem-se a si mesmos como filhos/filhas da Terra, mãe carinhosa e fecunda.
“A 22 de abril de 2009, a Assembleia Geral da ONU acolheu, por unanimidade, a ideia de chamar a Terra de Mãe Terra. Essa mudança significa uma revolução em nossa forma de olhar o planeta e em nossa relação com ele. Uma coisa é dizer Terra, que eventualmente pode ser comprada, vendida e explorada economicamente. Outra coisa é dizer Mãe Terra, porque a mãe não se pode vender, comprar nem explorar, mas amar, cuidar e venerar. Atribuir tais valores à Terra implica aceitar que ela é sujeito de dignidade e portadora de direitos” (Leonardo Boff).
Por toda parte constatamos que a Terra, Mãe comum de todos nós, está sendo violentada de forma cruel. Ela já não aguenta mais a voracidade e a exploração indiscriminada das quais é vítima indefesa. Gaia encontra-se seriamente doente e gravemente ferida. O homem que deveria ser seu anjo de guarda tornou-se o anjo exterminador, com atitude de um verdadeiro satã da Terra.

Em nossos dias, a Terra começa a mostrar mais claramente sinais de estresse generalizado: radicais mudanças climáticas, devastação da biodiversidade, desertificação de regiões outrora tão férteis em vegetação, escassez de água potável. Somos advertidos de que, ainda no decorrer desse século, poderemos assistir à devastação da vida na Terra e ao desaparecimento de grande parte da própria espécie humana.

Não faz muito tempo que recebi um convite da MMX para visitar o local da sua nova mina nas imediações de Farofa. Respondi que, no momento, seria difícil para mim aceitá-lo, pois faria “chorar o coração” vendo a Natureza desfeita para dar lugar à exploração de minério em grande escala. Questão sentimental? Não sei, mas minha consciência me impede de transigir princípios, considerados inegociáveis. Quero, entretanto, deixar claro que, ao apresentar questionamentos e mesmo críticas, nunca tenho a intenção de atacar pessoas e, muito menos, de difamá-las. A finalidade dessas reflexões ultrapassa, de longe, o nível meramente pessoal, pois diz respeito a horizontes bem mais amplos que envolvem a todos nós
— defensores ou opositores do projeto de expansão da Mineradora (agora em plena crise com risco de falência) — numa responsabilidade ética à qual não podemos furtar-nos. Quero, no entanto, lembrar que todas nós, empresários ou simples cidadãos, somos responsáveis pelos nossos atos. Um policial não pode simplesmente se esconder detrás de uma obediência ingênua: “Estou cumprindo ordens superiores”! Também diretores, gerentes e demais funcionários de grandes empresas são corresponsáveis pela atuação de ‘seu negócio’. Não é porque recebem um salário que podem participar de atos que ferem a consciência. Na História do Cristianismo temos luminosos exemplos de homens e mulheres que — em nome do Evangelho — se recusavam a certos atos que eram, na sua convicção, incompatíveis com a profissão de sua fé, por exemplo o serviço militar que poderia obrigar a matar alguém em caso de guerra.

“Tudo o que existe e vive na Natureza merece existir, viver e conviver. O Universo, de fato, é uma imensa teia de relações, na qual todos vivem pelos outros, para os outros e com os outros”.

Numa próxima reflexão falaremos sobre a recente ‘Carta Verde’ do Papa Francisco: a Encíclica Laudato Si (com data de 2405-2015), “sobre o cuidado da Casa Comum”, divulgada em 18 de junho de 2015. Trata-se do mais importante Documento do Magistério da Igreja Católica sobre a questão ecológica. Por ora cito apenas o número 16 da Encíclica em que Papa apresenta alguns eixos que atravessam todo sua eco-encíclica: “A relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mun¬do, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a econo¬mia e o progresso, o valor próprio de cada criatu¬ra, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsa¬bilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida. Estes temas nunca se dão por encerrados nem se abandonam, mas são constantemente retomados e enriquecidos”.

frater Henrique Cristiano José Matos, cmm

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