Data : 02/06/2015

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2ª Reflexão

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No primeiro número do Jornal MMX (setembro de 2012), página 1, lemos o seguinte: “Aqui, em São Joaquim de Bicas, a MMX constrói uma das maiores usinas de beneficiamento de minério de ferro do mundo, que aumentará a capacidade de produção de 8,7 milhões para 29 milhões de toneladas anuais”. Em outras palavras, trata-se de um ‘projeto faraônico’ tendo em vista lucros estrondosos.

Por ocasião da audiência pública, na terça-feira, dia 22 de março de 2011, no Ginásio Poliesportivo “Pedro Maia”, em Farofa (nome popular do Bairro Nossa Senhora da Paz, Município de São Joaquim de Bicas) já tinha sido anunciado esse gigantesco “projeto de expansão” que iria triplicar a atual produção da empresa. No prospecto, distribuído na ocasião, são mencionados “a responsabilidade social e ambiental, transparência e disposição para o diálogo”, sendo “princípios dos quais as empresas do Grupo EBX [do qual faz parte a MMX] não abrem mão”.

Perguntamo-nos, agora: dentro de qual “modelo econômico” o projeto em tela se situa? Sem nenhuma dificuldade entende-se que está em jogo um capital que ultrapassa, de longe, a imaginação do cidadão comum. Na mencionada publicação aparece, com frequência, o termo “desenvolvimento”, com a observação de que o projeto previsto traria grandes benefícios para a população local! No fundo, a visão aqui apresentada remonta à época do racionalismo, que na pessoa do pensador inglês, Francis Bacon (1561-1626), tem um ilustre representante. Surge a concepção de um “domínio absoluto e ilimitado” sobre a Natureza, que deve ser “torturada até que entregue todos os seus segredos”. O que prevalece é a exploração racional das riquezas da Terra, com o objetivo de se obter um “progresso sempre crescente” e, consequentemente, uma prosperidade que satisfaça as mais ousadas ambições do ser humano. A Terra é vista como um simples conjunto de recursos naturais, de matérias primas, diretamente disponíveis. O ideário defendido relaciona a “posse” dos bens à “felicidade” e à “realização” humanas. Seu funcionamento prático pode ser resumido na seguinte frase: “Como posso ganhar mais, no menor tempo possível e com o mínimo de investimento?”

No decorrer do tempo, as ações, brotadas desse princípio racional, levaram à acumulação de riqueza em poucas mãos (os grandes Grupos, Holdings e Empresas transnacionais) à custa de uma espantosa pilhagem da Natureza e do empobrecimento de muitos povos. Na realidade, o capital constitui o motor decisivo desse sistema, tendo como objetivo “gerar riqueza”, numa lógica desenfreada de “querer sempre mais, mais ainda, mais sem fim…” A Terra é considerada como um baú de recursos infinitos a serem explorados sem limites. Ao longo dos anos perdeu-se, quase por completo, a visão sacral da Terra, nossa grande Mãe, uma realidade orgânica e dinâmica de seres vivos que mantêm entre si fortes laços de dependência, sem que isso impeça sua relativa autonomia. Surgiu no mundo, tido por “moderno”, uma cultura que pode ser caracterizada como “capital pilhador”, tendo a Terra como algo inerte, um conjunto desarticulado de solos e águas. Em termos mais sofisticados podemos dizer que a Terra passou a ser considerada uma mera res extensa, uma “coisa”, objeto sem vida e sem inteligência, que pode ser usada a bel prazer dos humanos, até que todos os seus recursos sejam esgotados!

A idolatria do capital virou um “lobo voraz”, que devora literalmente tudo que vem à sua frente. É capaz de fazer-se suicida, pois prefere morrer e fazer morrer a perder! O modo de produção, implantado nos últimos séculos e hoje difundido mundialmente, transformou tudo em “mercadoria”, estimulando as pessoas a um “consumo” sempre maior. A meta é evidente: obter lucros cada vez mais volumosos! Nesse modelo pouco importam os inalienáveis direitos da Natureza. Compaixão e solidariedade simplesmente não contam e nem a preocupação para com as futuras gerações. O que prevalece são as vantagens imediatas e privatizadas. Tudo é medido exclusivamente pela capacidade de se fazer “negócio” e lucrar com a “mercadoria”, ou seja, a oportunidade de ter “ganhos” imediatos. A obsessão de enriquecimento rápido levou, em nossos dias, a uma profunda crise socioeconômica que alguns países já experimentam dolorosamente.

As consequências da situação, aqui descrita de forma global e até um tanto simplista, são, na realidade, gravíssimas. O modelo vigente, visando a um “crescimento acelerado” está nos conduzindo a uma destruição assustadora dos bens naturais. O propalado “progresso econômico” pode, a médio prazo, transformar-se em suicídio do nosso planeta e, logicamente, da própria Humanidade. Uma sociedade que propaga como ideal de vida apenas aquilo que serve para sua utilidade e consumo, condena-se a si mesma. Devemos denunciar o sistema atualmente imperante como cruel, inumano, sem piedade e hostil à própria vida. O suposto “desenvolvimento” possui uma elevadíssima taxa de dívida para com a Natureza, que é nosso berço comum e sustentáculo de uma riquíssima variedade da vida. Igualmente, contém uma injustiça clamorosa pelo fato de apenas uma pequena parcela da sociedade se apropriar, de forma egoísta, dos bens naturais que, por direito, pertencem a todos que habitam a Terra, sendo sua “propriedade comum”, da qual os seres humanos devem ser os conscientes administradores, mas não os donos!

Estamos diante de uma opção entre vida ou morte, que afeta diretamente nosso futuro. Sim, “torna-se urgente superar a cultura da coisificação da Natureza e construir uma nova civilização capaz de garantir a vida e integridade da criação”.

frater Henrique Cristiano José Matos, cmm

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